"É uma catástrofe, que, actualmente, se pode prevenir e tratar", disse ao CM Castro Lopes, presidente da Sociedade Portuguesa de Acidente Vascular Cerebral (SPAVC).
A criação de um "corredor verde intra-hospitalar" é fundamental para que na fase aguda da doença seja possível actuar. "O doente deve exigir que seja dirigido a uma unidade AVC do hospital e não permitir que haja hesitações. Nas três horas seguintes aos sintomas, ainda é possível evitar danos tomando uma injecção de fibrinolise", explicou Castro Lopes, que frisa a importância desta injecção que desentope as artérias.
Estão identificados cinco factores de risco: tensão arterial elevada, diabetes, as doenças do coração, a vida sedentária e o tabaco. Em Portugal, as regiões de maior incidência da doença são Trás-os-Montes e Alentejo, com maior risco a partir dos 50 anos e com maior prevalência nos homens.
A reabilitação dos doentes é uma necessidade premente. "Não se pode dar pequenas doses, como quem dá uma esmola, precisa de fisioterapia enquanto tiver um défice, até porque gera dor. Trinta sessões não chegam", afirmou o presidente da SPAVC.
Esta doença, ligada ao envelhecimento, ainda deixa muitos doentes sem tratamento, nomeadamente quem tem parcos recursos económicos e os que residem longe dos centros urbanos.
DEPRESSÃO É CONSEQUÊNCIA FREQUENTE
A depressão depois de um episódio de AVC é muito frequente e até há pouco tempo marginalizada. "Assumia-se como uma consequência natural, porque os doentes são idosos. Era minorizado", disse ao CM a médica especialista, Gabriela Lopes. Uma maior percepção desta situação possibilitou aos especialistas constatar que é recorrente. A perda de autonomia do doente e as mudanças na sua vida quotidiana são normalmente factores que levam à quebra psicológica.
As famílias estão, actualmente, também menos preparadas, pois já "não há mulheres domésticas" e os homens "têm menos predisposição para tomar conta das mulheres", pelo que é aos centro de dia e às unidades de Cuidados Continuados que esses tratamentos estão reservados.
"Sou defensor dos centros de dia, com boa convivência, alimentação e que os leve e traga de casa", acrescentou o especialista Castro Lopes.
ANA MARIA LUCAS "RECUPERA BEM"
Ana Maria Lucas, de 59 anos, teve um AVC ligeiro na passada terça--feira, mas "está a recuperar bem", segundo o filho, Francisco Mendes. "Hoje [ontem] encontrei-a um pouco melhor. Ela está bem-disposta. Vamos ter esperança que possa melhorar o máximo possível. A minha mãe é uma mulher com muita força", sublinhou.
"Do que a minha mãe mais necessita agora é de repouso. Tem sido acompanhada no Hospital de Santa Maria, onde está internada, pelos médicos e por mim, pelo meu irmão, pela minha mulher e outros familiares", acrescentou o co--apresentador, com Isabel Figueira, do programa ‘Top +’, na RTP 1.
Ana Maria Lucas é uma das comentadoras da rubrica ‘Tertúlia Cor-de-Rosa’, no talk show matinal da SIC, ‘Fátima’. Manolo Bello, sócio-gerente da Comunicasom, produtora do programa, adiantou ao CM: "O filho da Ana Maria, Francisco, ligou-me a avisar que a mãe estava hospitalizada e que, por uns dias, não poderíamos contar com ela. Oferecemo-nos para ajudar nalguma coisa em que pudéssemos ser úteis e transmitimos-lhe que a mãe regressasse ao trabalho quando achasse bem."
Ana Maria Lucas nasceu em Lisboa a 15 de Abril de 1949. Em 2004, foi concorrente do reality show ‘Quinta das Celebridades’ (TVI). Participou ainda em séries e novelas, a última das quais ‘Floribella’, na SIC, em 2007. A ex--miss foi casada com Carlos Mendes. Contactado pelo CM, o cantor disse ter "combinado com o filho ser ele a dar notícias da mãe".
"50% MORRE NUM ANO": Gabriela Lopes, Médica especialista de AVC
Correio da Manhã – Qual é a taxa de mortalidade depois de um primeiro episódio?
Gabriela Lopes – Apesar de cada pessoa ser um caso e de as percentagens poderem não ser adaptáveis, em termos gerais a taxa de mortalidade é de 25 por cento no primeiro mês e de 50 ao fim de um ano. Dos que sobrevivem, metade fica incapacitada.
– Que tipos de AVC existem?
– Há dois grandes tipos. Os hemorrágicos, que é quando uma veia rebenta no cérebro, e os esquémicos, que resultam da falta de irrigação cerebral, devido a um coágulo ou fecho de uma artéria.
–A injecção de fibrinolise é aplicável a todos?
– Não, apenas a alguns casos. Têm de chegar até às três horas e quando a extensão da lesão não é demasiado grande ou baixa. Até porque a injecção pode ter consequências danosas como uma hemorragia.
– Há doenças associadas?
– Sim, nomeadamente as que estão ligadas à imobilização do doente. As mais recorrentes são as infecções urinárias, depois as infecções respiratórias, mas também as ulcerações de pressão na pele.
ESCRITORA DÁ MAIS VALOR À VIDA
A escritora Margarida Rebelo Pinto, de 43 anos, acordou numa manhã de Maio de 2007 sem controlo motor no ombro e no braço direitos. Seguiram-se tonturas, enjoos e vómitos. Chamou o 112 e foi para o Hospital de Santa Maria. Acabara de sentir os efeitos de um AVC. Estabilizada e entubada, os exames que fez detectaram "um coágulo numa das artérias cervicais e lesões no cerebelo". Foi operada ao coração, tendo-lhe sido colocado um oclusor, pequeno aparelho em níquel-titânio. Diz que passou a dar mais valor à vida.
LUÍSA GANHA "NOVA CHANCE"
A apresentadora de televisão, Luísa Castel-Branco, de 54 anos, passou o Natal de 2006 no Hospital Curry Cabral. Sentia-se mal, um vírus pulmonar provocava-lhe dificuldades em respirar. Mais tarde, foi para casa, mas começou a sentir fortes dores de cabeça, "estava zonza e confusa". Foi internada no Hospital de São José, onde descobriram que tinha tido um AVC. Durante o internamento descobriu que tinha outros problemas. Recuperou e sente que, desta vez, Deus lhe deu "uma segunda chance". Fez várias tentativas para deixar de fumar.
João Carlos Malta