
Seitas da morte
Negócio com seitas prospera em Cabinda
Bernardo CapitaCabinda
Em Cabinda, há quem recorra à religião para ganhar dinheiro. O negócio é lucrativo já que os seus promotores encontram receptividade no seio da população, sobretudo entre as pessoas desesperadas que, face às dificuldades sociais, recorrem às seitas na tentativa de atenuarem os efeitos dos seus infortúnios. E pagam a pronto. Até há cinco anos, o negócio das seitas era controlado por imigrantes ilegais oriundos da RDC. Hoje, e por se tratar de um negócio de enriquecimento fácil, muitos cidadãos nacionais fundam os seus “templos”.
A prosperidade do negócio promove a proliferação de seitas religiosas ilegais por tudo quanto é canto da cidade de Cabinda. A maior parte delas estão instaladas em quintais e os moradores das redondezas queixam-se que são massacrados com o barulho ensurdecedor dos altifalantes que amplificam as orações e os cânticos de louvor a Deus.
Afonso Zinga e Daniel Bongo, ambos moradores no bairro Chimpidi, são vizinhos da igreja “Combate Espiritual” que tem origem no Congo Democrático. Disseram à reportagem do “JA” que estão cansados com o funcionamento do templo, porque o barulho é tanto que atenta contra as regras mínimas da boa vizinhança. São orações e cânticos 24 horas sobre 24 “com um barulho que inquieta os vizinhos”.
Afonso Zinga ainda acrescenta mais uma preocupação: “os meus filhos não conseguem estudar em casa com o barulho que esta igreja faz”. Os moradores do bairro já apresentaram queixa contra a seita, mas ninguém tomou medidas.
Papás e pastores
Os chefes das seitas atribuem a si próprios o título de “Papá Pasteur”. E são figuras muito consideradas no seio dos fiéis das igrejas, apesar de serem também o principal instrumento de extorsão de dinheiro aos seguidores. Os pastores destas seitas ilegais sacam aos fiéis gordas esmolas e dízimos, recorrendo à uma profecia bíblica: ”quem vai a casa de Deus não vai de mãos vazias”. Quem não tem dinheiro, paga com bens, mais ou menos valiosos. Em troca, os papás pastores prometem que Jesus irá operar maravilhas nas vidas dos doadores.
A nossa reportagem apurou que os papás pastores, na esmagadora maioria dos casos, apenas falam o “lingala” na celebração da liturgia, e nos cânticos de louvor a Deus. O Secretário Provincial do Conselho de Igrejas Cristãs de Angola (CICA) em Cabinda, reverendo João Alberto, disse à nossa reportagem que os papás pastores “estão camuflados como servidores de Jesus Cristo” mas a única coisa que praticam é o “mercantilismo religioso”.
O reverendo João Alberto, da Igreja Evangélica Reformada de Angola (IERA), disse que “eles estão a aproveitar-se da mensagem bíblica para dizer que conseguem resolver infortúnios, como acabar com a miséria e a pobreza, bastando para tal acreditar em milagres e gritar pelo nome de Jesus”.
João Alberto acrescentou: “Isto de ponto de vista teológico é uma aberração, porque Deus deu ao homem a inteligência para transformar a natureza para o seu próprio benefício e o homem deve, acima de tudo, trabalhar para ganhar a vida e nunca, conforme estas igrejas anunciam, depender tão-somente da fé, de esmolas gordas ou de dízimos”.
“Na Bíblia, está escrito que o homem deve trabalhar para conseguir o seu pão”, disse ainda o reverendo João Alberto, que alerta às autoridades e à sociedade para uma questão ainda mais grave: “muitas destas seitas religiosas ilegais transformaram-se em locais de internamento para tratamento e cura de doentes. E os pacientes, em vez de se dirigirem aos centros hospitalares, recorrem a estes sítios onde muitas vezes encontram a morte”.
Seitas da morte
As acusações de feitiçaria feitas por estes pastores a adultos e crianças já levaram muita gente à morte. Em algumas “igrejas”, as crianças, para se libertarem do “feitiço” e expulsarem os maus espíritos, são obrigadas a jejuns que vão dos 20 aos 45 dias. “Não são os chinlongos (casas de oração e de cura) que vão resolver os problemas de saúde das pessoas” disse o reverendo João Alberto, que aconselha as autoridades a exigirem a legalização dessas seitas como “centros de cura tradicionais”, para haver um maior controlo.
O Chefe de Departamento Provincial da Cultura em Cabinda, Francisco Ângo, acusou os responsáveis de seitas religiosas ilegais de serem os principais causadores da morte de muitos cidadãos, que ocorrem nos templos, como consequência de falsos diagnósticos e das terapias. “A proliferação de seitas em Cabinda deixou de ser normal, agora é muito preocupante, tendo em conta o número de igrejas ilegais existentes na província e as consequências que o fenómeno estão a causar no seio de muitas famílias”.
Francisco Ângo recordou o caso da seita religiosa que fez cinco crianças reféns sob a alegação de serem feiticeiras, “uma odisseia que culminou com a detenção e julgamento dos responsáveis da seita. O chefe do Departamento Provincial da Cultura disse que o número de seitas ilegais existente em Cabinda é assustador e aumenta todos os dias.
Actualmente, a instituição tem notificadas 110 igrejas ilegais e 46 reconhecidas. Mas Francisco Ângo considera abismal o número de igrejas numa região cujos habitantes são maioritariamente cristãs.
Francisco Ângo disse que o Governo está preocupado com o fenómeno de proliferação de seitas religiosas, e apelou à conjugação de esforços no sentido de se banir esta prática que está a causar graves problemas em várias famílias, por acusações de feitiçaria que culminam na morte de entes queridos. “Estamos preocupados com o comportamento dessas seitas, mas a população vítima das seitas deve queixar-se aos órgãos locais de justiça”, concluiu.
Combater o fenómeno O reverendo João Alberto diz que as autoridades que intervêm no processo de legalização de igrejas em Angola, “deveriam, antes de conceder a permissão das suas actividades, inteirarem-se sobre o conteúdo e essência da sua doutrina. Apesar de falarem de Cristo, eles desvirtuam a sua doutrina ao usarem a magia, o que contraria os princípios consagradas na Bíblia”.
Do ponto de vista sociológico, o reverendo João Alberto admite que a proliferação de seitas é um fenómeno derivado da transformação política decorrente no país, “daí que seja importante identificar as igrejas ilegais, quem são as pessoas que as frequentam, a faixa etária, as suas condições sociais, se trabalham ou não, o que ganham, se são casados ou não”.
Na vertente teológica, o representante do CICA em Cabinda, adverte as pessoas a não brincarem com a religião, “pois ela não é uma actividade comercial, mas de ligação do homem com Deus, a quem devemos o culto de adoração por nos ter criado e, acima de tudo, por se considerar que é a providência divina que guia o homem. A igreja é um sacramento de salvação, um instrumento onde o homem realiza a redenção que Cristo trouxe para toda a humanidade”.
Legalizar é fácil
O reverendo João Alberto defende a necessidade da criação de uma estrutura oficial, que envolva a participação de representantes das diversas igrejas tradicionais existentes em Angola, de modo a contribuírem na análise de dossiers referentes a pedidos de abertura de novas igrejas e da sua legalização. “A actual lei concede autorizações e legalizações de uma forma muito fácil, daí o surgimento em Angola de muitas seitas religiosas ligadas aos novos movimentos pentecostais com origem na República Democrática do Congo.
A assembleia-geral do CICA, realizada em 2007, em Luanda, recomendou ao Ministério da Justiça e ao Ministério da Cultura para terem em conta o fenómeno das seitas ilegais, colocando junto da Direcção Nacional de Assuntos Religiosos, individualidades com conhecimentos em teologia. “Hoje, até o Budismo esta sendo reconhecido. Nós não estamos contra, mas atenção com os preconceitos dessas igrejas que não se compadecem com os usos e costumes dos angolanos”, disse o reverendo João Alberto.
O “JA” apurou que o Ministério da Justiça e o Ministério da Cultura suspenderam as autorizações para a abertura de novas igrejas.
Poder mágico
As seitas religiosas ilegais em Cabinda utilizam a magia negra como forma de ludibriar os crentes que procuram cura para as suas doenças e uma vida melhor. Francisco Ângo é muito claro: “estes sítios só aumentam a pobreza e miséria das pessoas e os pastores não passam de ilusionistas, praticantes de artes mágicas, que aprendem em escolas de Kinshasa”. Muitos pastores, antes de emigrarem para Cabinda, “frequentam cursos de magia durante dois ou três meses, recebem os diplomas e depois vêm para Angola enganar o Povo”, denunciou Francisco Ângo.
O reverendo João Alberto alertou a população para a existência de falsos profetas, líderes religiosos e pastores que fazem da religião “fonte para ludibriar e extorquir bens a cidadãos. O nosso povo é cristão e sempre conheceu a palavra de Deus, daí que peço a todos os que estão vinculados às igrejas tradicionais para não se deixarem enganar”.