
Portugal está em seca fraca
O Outono quente que se vive preocupa quem depende das condições climatéricas para sobreviver, como por exemplo os agricultores do Alentejo, que não auguram nada de bom. Entretanto, é real a falta de precipitação e dois terços do País está mesmo em seca fraca.
Dois terços do território português estão em situação de seca fraca desde Outubro, devido às elevadas temperaturas para a época e à falta de chuva, o que já obrigou a limitar a exploração hidroeléctrica de algumas barragens. “Houve um alargamento da área em situação de seca fraca, que atingia no final do mês de Outubro dois terços do território”, disse Luís Filipe Nunes, responsável pela divisão de observação meteorológica e do clima do Instituto de Meteorologia (IM). O mesmo não acontecia no mês anterior, já que a 30 de Setembro quase todo o território estava em situação normal (76 por cento) e apenas parte do interior do Alentejo em situação de seca fraca (16 por cento). Outubro foi o mais seco deste século e o segundo mais seco dos últimos 18 anos, com uma precipitação de apenas 35,4 milímetros, bastante inferior à média (92,5 milímetros) registada entre a década de 40 e 1998.
A falta de chuva não se reflecte ainda no nível das albufeiras, segundo o Instituto da Água (Inag), e só poderá eventualmente reflectir-se na Primavera ou Verão do próximo ano se Portugal continuar sem chuva. “Existe sempre um desfasamento [de tempo] entre os valores meteorológicos e hidrológicos. Em termos globais, a situação das albufeiras é quase a normal, mas já obrigou a intervenções pontuais em algumas barragens”, afirmou o presidente do Inag, Orlando Borges. A Barragem da Aguieira, que abastece algumas cidades do centro, foi uma das que sofreu nos últimos dias uma limitação da exploração hidroeléctrica, mas Orlando Borges classificou esta intervenção como uma “situação pontual a acompanhar”. Os dados do Inag, relativos ao mês de Outubro, indicam que, das 57 albufeiras monitorizadas pelo Instituto, nove tinham disponibilidades de água superiores a 80 por cento da sua capacidade e dez inferiores a 40 por cento. Os níveis mais baixos verificavam-se nas albufeiras do Arade (com apenas 36,2 por cento de disponibilidade hídrica face a uma média de 38,2 no período 1990/2000) e do Lima (com 37,2 contra uma média de 58,2 por cento).
Armazenamento
No entanto, os armazenamentos das bacias em Outubro deste ano foram “superiores às médias” de armazenamento do mesmo mês, excepto nas bacias do Lima, Ave, Mondego e Arade, pelo que Orlando Borges minimiza a situação, frisando estar-se “muito longe de poder falar de uma situação de seca” hidrológica. Mas a manter-se a falta de chuva, que está prevista para os próximos dias, a situação de seca meteorológica pode agravar-se. “Para não haver um agravamento, era preciso que a precipitação no mês de Novembro fosse superior ao normal”, explicou Luís Filipe Nunes. No mês de Outubro, a temperatura média foi superior à normal (mais 0,2 graus) em todo o território continental, com excepção de algumas zonas do Interior Norte e Centro. Mas o mais relevante é o que diz respeito às temperaturas máximas. “Houve uma persistência de temperaturas máximas iguais ou superiores a 25 graus numa extensa área do território”, explicou.
Em Alcácer do Sal, por exemplo, registaram-se 22 dias com temperaturas iguais ou superiores a 25 graus. Em Lisboa, Estremoz e Faro, as temperaturas subiram acima dos 25 graus durante 11 dias. No mês de Outubro houve mesmo valores superiores a 30 graus em Alcácer do Sal, Alcobaça, Alvalade do Sado, Mértola, Sines e São Teotónio (Odemira). Mas nenhuma destas situações é completamente fora do normal, apesar dos sinais de persistência de temperaturas elevadas, salientou o técnico do IM.
«Fantasma»
No Alentejo, a situação já deixou os agricultores em sobressalto receando o futuro. “Os agricultores alentejanos andam preocupados com o tempo e temem um novo ciclo de seca”, disse o responsável no Alentejo da Associação de Jovens Agricultores de Portugal (AJAP), Nelson Figueira, lembrando que “o fantasma da seca de 2005 ainda acompanha” os homens da terra. “A falta de chuva e as altas temperaturas deste Outono são sintomas que não auguram nada de bom”, vaticinou o responsável, acrescentando que “fazem lembrar o Outono de 2004, quando começou a grave seca que afectou o País em 2005”, com especial incidência no Alentejo. “Os agricultores estão muito apreensivos”, confirmou também o presidente da Associação de Agricultores do Distrito de Portalegre, manifestando-se “preocupado” com a possibilidade de um novo ciclo de seca afectar o Alentejo. Neste momento, “não existem casos graves”, garantiu Fragoso de Almeida, alertando, contudo, para eventuais “sérios problemas na gestão agrícola das explorações”, se as actuais condições metrológicas se mantiverem.
De acordo com os representantes associativos, o tempo seco e quente deste Outono está a afectar algumas culturas de Outono/Inverno no Alentejo, como as de cereais praganosos (trigo, cevada e aveia), olival e pastagens naturais. Quanto às culturas cerealíferas, “os agricultores que semearam cedo não vêem a semente desenvolver e os que estavam agora a semear tiveram que parar os trabalhos”, explicou Fragoso de Almeida. A manter-se a falta de água, “os agricultores vão adiar ou desistir de fazer sementeiras cerealíferas”, sublinhou Nelson Figueira, salientando que, “ainda é cedo para diagnósticos, mas é provável que haja uma quebra na produção de cereais”. Os olivais também estão a “ressentir-se” da falta de água e do tempo quente e os estragos “poderão reflectir-se na quantidade e qualidade da produção”, alertou Nelson Figueira.
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Falso Outono
O Verão tardio, aliado à crise económica, mudou os hábitos outonais dos portugueses. Comerciantes de roupa e vendedores de castanhas queixam-se de uma quebra nas vendas neste falso Outono. O termómetro ultrapassa muitas vezes os 20 graus, convidando a vestir roupas leves, mas também a consumir produtos frescos e leves. Cândido Santinhos vende castanhas à entrada de um centro comercial em Benfica, Lisboa, e alega que “as vendas estão más, más, más”. Mas também as próprias castanhas não têm a qualidade de outros anos, segundo o vendedor. Vendedora de roupa, Isabel Tomás confirma que o tempo condiciona as compras: “As roupas mais grossas têm tido mais dificuldade em ser escoadas. Há uma quebra de vendas este ano em particular”. Mas as marcas vão-se adaptando e, para contrariar a baixa de vendas, alteram-se as colecções de Outono/Inverno: “As colecções são mais leves”, explica, afirmações que outros vendedores confirmam.
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Praia e castanhas
As praias da Costa de Caparica continuam com banhistas. Lojas, restaurantes e cafés enchem ao fim de semana. Os comerciantes não escondem a satisfação com este Verão tão longo: em alguns casos, as vendas cresceram 60 por cento em relação a 2006. Mas o Outono anormalmente quente está a atrasar a apanha da castanha em Trás-os-Montes. Em compensação os produtores estão a lucrar com a escassez do produto, que fez disparar os preços. O presidente da associação de produtores florestais ARBOREA, sedeada em Vinhais, Eduardo Roxo, garantiu que este ano os produtores estão a receber em média mais quarenta cêntimos por quilo do que no ano passado.