
E tudo serviu para ver os aviões
"Lotação esgotada" nas margens do Douro marcou final da corrida e trouxe gente de todo o lado
Carla Soares e João Queiroz
Não era noite de S. João, mas parecia. Ontem, todos os caminhos iam dar ao rio Douro. A adesão à Red Bull Air Race ultrapassou o meio milhão de espectadores, com a organização a contabilizar 600 mil pessoas. As cidades do Porto e de Gaia pararam para ver os aviões e acolheram gente de todo o país e além-fronteiras, que instalaram a confusão no trânsito e em todos os meios de transporte. O britânico Steve Jones ganhou o duelo com o líder Mike Mangold, piloto norte-americano, e voltou ao pódio, um ano depois.
Os prémios foram entregues no Cais de Gaia, por Paulo Campos, secretário de Estado das Obras Públicas e Telecomunicações, numa cerimónia a que faltaram os presidentes das duas câmaras que patrocinaram o evento, Rui Rio e Luís Filipe Menezes, que terá custado, segundo a organização, cerca de 14 milhões de euros. A corrida continua agora, com nova etapa, em San Diego, nos Estados Unidos.
Ao longo de ambas as marginais, o cenário era o mesmo. Nenhum espaço possível ou mais ousado escapou à multidão, com os entusiastas a proliferar por tudo quanto era sítio, desde árvores e telhados a coberturas de paragens de autocarro e cabinas telefónicas. E, junto à Alfândega do Porto, os bombeiros até auxiliavam, com a sua escada, a subida e a descida dos muros. Muitos, amadores ou profissionais, procuravam o local com melhor ângulo para fotografar.
"Sem lugar para mais um"
O público começou a chegar bem cedo, alguns pelas oito da manhã. Se, no Porto, só depois das 11 horas é que as ruas, escadas e varandas ficaram lotadas, em Gaia, todos os espaços foram rapidamente ocupados pelos mais previdentes, sobretudo os locais junto à margem.
Ali, a uma hora do espectáculo, circular não era fácil. "Pensava que só vínhamos nós", ironizava um amigo para outro. Se junto ao rio não havia lugar nem para mais um, nos acessos, a situação não estava melhor.
Havia, por isso, quem "aterrasse" na estação do metro do Jardim do Morro e desse meia volta, tal a multidão naquele jardim transformado numa verdadeira bancada. Até as árvores serviam de janela para ver os aviões. "Lotação esgotada", anunciava José Pedro, quando um amigo lhe pediu para tentar arranjar lugar para mais um.
Filas para comer
Do outro lado do rio, a circulação de peões fazia-se, sobretudo, no sentido Ribeira/Foz, sendo um dos locais mais procurados a zona do viaduto de Massarelos. Ao longo da Rua Nova da Alfândega e da Rua Monchique, a passagem foi se tornando impossível, à medida que se aproximava a hora da prova. No local, permanecia, entusiasmado, José Madeira. "Penso que já era apaixonado pelos aviões no ventre da minha mãe", contava, ao JN.
Muitas bicicletas e carrinhos de bebé aumentavam, entretanto, a confusão. E muitos estavam sem comer ou beber, enquanto outros merendavam onde podiam.
Perto das três da tarde, as filas para barris de cerveja improvisados continuam sem fim à vista, bem como a espera para comprar algo de comer. Num dos estabelecimentos, junto ao viaduto de Massarelos, nada mais restava a não ser pão com manteiga ou "ice tea" para vender àqueles que procuravam enganar o estômago e a sede, sob o calor arrasador.
Tudo servia para fazer de chapéu, desde jornais, sacos de plástico, cadeiras de pano, guarda-sois ou camisolas. "O calor está a matar, temos que nos desenrascar", justificavam os dois amigos que traziam na cabeça toalhas de praia enroladas com arte.
O cenário foi mais negro quando se tratou de socorrer os mais indispostos, sobretudo pela exposição ao sol. Ao JN, Luís Mera, responsável pelo dispositivo do INEM, contou que os problemas de circulação para as viaturas de emergência se agravaram bastante em relação à véspera. E, em vários casos, tiveram de deixar os veículos e sair a pé até às vítimas. Foram registadas 218 ocorrências, com 14 pessoas evacuadas para o hospital, uma delas em trabalho de parto e outra, uma criança, com uma lesão na face devido a uma queda. Os casos foram sobretudo provocados pelo calor, vários deles de menores.
O plano de segurança, que tanta polémica gerou, acabou por ser operacionalizado sem problemas de maior.

Povo no cais fez lembrar folia de S. João
ALFREDO MENDES
Jornada memorável teve uma moldura humana praticamente compacta
S. João, o santo mártir decapitado devido aos caprichos femininos de uma tal Salomé deve estar murcho perante esta iniciativa publicitária quase a rivalizar em moldura humana com a folia que, em Junho, lhe é tributada. Mudam-se os tempos, as vontades vão no seu encalço.
Com as cabeças voltadas para o céu, à volta de 600 mil pessoas apinharam-se nas zonas ribeirinhas do Porto e de Gaia para seguirem as proezas malabaristas das máquinas voadoras. Ou seja: o balão de ar quente fora substituído por 310 cavalos e piloto de... sangue frio!
A prova, inédita em Portugal, concitou um entusiasmo, uma alegria de festa popular. Voar a dez metros das águas do Douro, a 400 quilómetros/hora, num circuito sinuoso, requer muita experiência, grande precisão, um ror de reacções instintivas. O fascínio de um sábado à margem da serenidade costumeira, seja na areia quente da praia ou nas promoções dos centros comerciais.
Manobras de alto risco, emoção, adrenalina, enfim, o que os pilotos de quatro continentes exibiram perante o ah!!! do público. Aplausos, que obviamente os protagonistas não ouviam e no ar azul o rasto de parafina líquida. Mais uma bebida, que o sol esquentava e outra aeronave picando, ziguezagueando entre os pórticos insufláveis.
"É pr´acabar, bonés a 1,5 euros!", cervejas, "tremoços, ó povo!", pregões, peitos ao léu e calções. Os mais afoitos (e irresponsáveis), empoleiraram-se no til dos telhados, acentuando a gravidade do perigo com demonstrações de pura fanfarronice. Como se não lhes chegasse o perigo, alguns deram a mão aos filhos de tenra idade. Em versão caseira, os números de acrobacia mental.
Outros, de olhos postos na rede metálica que preserva a queda de pedras da íngreme encosta da Lada, não hesitaram: musculatura à "Rambo" ostentada, toca de se emaranharem nas alturas, também com a filharada ao lado, feliz por tão altos voos.
Nacionais e estrangeiros, tripeiros, transmontanos, minhotos tomaram conta dos espaços cobiçados logo pelo alvor do dia. Comilança ameigada nas paredes estomacais, bastava esperar pelo "circo". Esta, a postura do excursionismo, multidão chegada em comboios ruidosos e autocarros com merandas e "air condicioned".
Povo maravilhado no Cais de Gaia, Jardim do Morro, Serra do Pilar, marginal a caminho da Afurada. Povo incontido na Ribeira, Freixo, incluindo a ponte, Massarelos, Miragaia, Foz. Calor, gelados, rio, mar e, a olho nu, os ases do ar.
Jovens em cima da cobertura das paragens dos transportes públicos, dos quiosques, dos mictórios. Esplanadas para os endinheirados, algumas sob reservas de empresas, dez euros para ingressar nos jardins públicos do Palácio de Cristal, a oportunidade do show não escapava ao raide do embolsar. Público e privado.
E, enquanto em ambas as marginais o furor prosseguia, por vielas e becos do casario Património da Humanidade os velhos davam de comer às pombas, espavoridas.

2007-09-02 - 00:00:00
Histórico: Porto a olhar para o céu
600 mil pessoas nas margens do rio Douro
Daniel Grund, Reuters
A Red Bull Air Race terminou ontem, mas volta já no próximo anoPara se ter uma ideia da magnitude que atingiu o dia de ontem do Red Bull Air Race, junto ao rio Douro, basta começar por referir que no São João, festa popular da cidade Invicta, estima-se que serão entre 120 a 140 mil as pessoas a sair à rua, no Porto. Ontem foram 600 mil os espectadores que se juntaram nas margens do Douro.
Um número que, para além de histórico, atingiu um recorde nacional, já que nenhum outro evento conseguiu reunir, em solo luso, tanta gente no mesmo dia.Desde as 06h00 que o público começou a chegar para assistir aos voos das máquinas dos 12 pilotos apurados para as finais de ontem.
Desde pequenas cadeiras até sacos-cama, tudo valia para permitir o conforto de quem seguiu as instruções da organização e se deslocou bem cedo para junto do local da prova. Às 08h00, as autoridades estimavam que o número de espectadores já atingia os 250 mil do dia anterior.
Seria fácil de prever as complicações que daí viriam. Trânsito parado, filas enormes de espera junto às pontes e ainda enorme confusão nas estações de metro mais próximas foram consequências naturais ao longo de todo o dia, que juntou mais de meio milhão de pessoas nas margens do rio Douro.
SEGURANÇA APROVADA
Fonte da organização revelou-se bastante satisfeita pelos números atingidos durante todos os dias da prova, mas principalmente pela meta dos 600 mil ontem atingida, já prevista na apresentação do evento. “As expectativas foram plenamente correspondidas, talvez até superadas. Temos consciência de que ultrapassámos o meio milhão de pessoas e que a capacidade do local foi esgotada”, referiu a fonte, sem deixar de lembrar o facto de não ter surgido qualquer problema de maior: “Depois de tanto alarido ficou provado que o plano de segurança estava adequado.”
Entre o calor, os espaços sobrelotados e consequentes indisposições e desmaios, foram 120 as ocorrências registadas pelas forças de segurança, das quais duas obrigaram a transporte para o hospital. Uma detenção por injúrias à autoridade completa a pintura em relação à segurança do dia decisivo da competição.
ATÉ DEU PARA FECHAR O CAFÉ
Face à multidão presente, não seria difícil adivinhar a afluência aos cafés e restaurantes das proximidades. Quando a essa multidão se junta o calor que se fazia sentir nas margens do rio Douro, a grande procura por uma bebida fresca trouxe o sucesso à restauração. “Para mim, devia haver um evento destes três vezes por ano, que aí o negócio melhorava e não era pouco”, disse Aida Magalhães, proprietária do café Maré Baixa, no cais de Gaia, e que decidiu fechar o seu estabelecimento ao público, por volta das 16h00, ainda a prova não tinha terminado.
A explicação foi dada ao CM: “Já estamos abertos desde as 06h00 e as bebidas praticamente esgotaram. Já fizemos bastante negócio durante o dia de hoje [ontem], acho que agora merecemos descansar”, revelou.
E O VENCEDOR É... STEVE JONES
Foi um dia de fortes emoções, em termos competitivos, aquele que se viveu ontem junto ao rio Douro. Depois da confirmação de que o espanhol Alejandro Maclean havia resolvido os seus problemas mecânicos e que, por consequência, Klaus Schrodt ficaria de fora, o que interessava saber era quem seriam os oito magníficos a passar aos quartos-de-final.
A verdade é que a primeira prova de qualificação do dia eliminou mais quatro pilotos, sendo eles Arch Hannes, Sergey Rakmanin, Frank Versteegh e Michael Goulian, que completaram os piores tempos e ficaram de fora dos confrontos mano a mano que viriam a decorrer daí para a frente.
O entusiasmo entre o público cresceu assim que teve início a fase do mata-mata, em que os pilotos, em confrontos individuais, tinham de fazer melhor tempo do que o adversário directo. Assim se encontrariam os apurados para as meias-finais e final.
A prova viria a coroar, de forma algo surpreendente, Steve Jones como o grande vencedor da etapa do Porto da Red Bull Air Race, piloto britânico que já não entra para as contas do título das World Series de 2007, lideradas por Mike Mangold, americano que ontem conseguiu o segundo lugar mas que completou o circuito com mais 33 centésimos de segundo do que o grande vencedor do dia, que fez o excelente tempo de 01:10.32.
Curiosamente, os pilotos que chegaram à final tinham sido penalizados no primeiro dia de treinos livres, o que não viria a perturbar os dois pilotos que saíram por cima da etapa portuense.
Steve Jones coleccionou a primeira vitória do ano, enquanto Mike Mangold continua na liderança geral da prova.
CENTÉSIMO DE SEGUNDO DECISIVO
Ponto alto do dia foi a meia-final entre Steve Jones e Peter Besenyei, em que o primeiro levou a melhor, por um centésimo de segundo.
AIR RACE DE VOLTA EM 2008
Se não foi um dos 600 mil que ontem assistiu à etapa portuense, descanse. A prova estará de regresso no próximo ano e é garantido que os voos da Air Race sobrevoarão o Douro pelo menos até 2009.
COUCEIRO COM AMOR ÀS 4 RODAS
Presente no evento esteve também o conhecido piloto de automóveis Pedro Couceiro, que se revelou entusiasmado com o evento mas “incapaz de pilotar um avião”. “Tenho amor às quatro rodas e ao chão que piso”.
NOTAS
PORTUGUESES COM ESCOLHA
Há a tendência entre o adepto de qualquer prova em escolher um preferido para a vitória. O Aeroclube de Viseu fez questão de apoiar Frank Versteegh.
MÁRIO PARDO ELOGIA PROVA
Na cerimónia de abertura houve lugar a um salto do base-jumper Mário Pardo, que elogiou o Red Bull Air Race: “Excedeu as minhas expectativas”.
ADESÃO ESMAGADORA
Para o secretário de Estado Adjunto das Obras Públicas a adesão do público portuense foi “esmagadora”, num espectáculo que classificou como “fantástico”.
Sérgio Cardoso
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