
http://www.clicrbs.com.br/jornais/pioneiro/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&edition=&template=&start=1§ion=Almanaque&source=Busca%2Ca1431084.xml&channel=27&id=0&titanterior=&content=&menu=43&themeid=§ionid=&suppid=&fromdate=&todate=&modovisual=
Caxias do Sul, 24 de fevereiro de 2007. Edição nº 9745
Comportamento
A palavra de casa em casa
Para as Testemunhas de Jeová, a pregação é apenas um das inúmeras formas de divulgar sua crença
As diaristas Dalva dos Santos, 45 anos, e Cleni Laindorf, 42, são tímidas e discretas, mas enchem-se de coragem na hora de tocar a campainha da casa de um estranho. Não temem ouvir palavras agressivas ou não ser recebidas. Seu propósito é maior: "levar as boas-novas a todos". As duas são Testemunhas de Jeová e dedicam 70 horas mensais ao trabalho voluntário de evangelização.
Dalva e Cleni são apenas dois exemplos. Toda pessoa que decide ser Testemunha de Jeová aceita a tarefa. Não precisa dedicar-se tanto quanto elas: qualquer tempo disponível é precioso. Todo fiel, antes mesmo de ser batizado na religião, aprende a fazer pregação e sair a campo. As congregações fornecem treinamento específico para desenvolver a função. Ser batizado é sinônimo de aceitar o dever - e o prazer, segundo eles - de pregar.
Áreas definidas
Somente em Caxias são aproximadamente 2,6 mil Testemunhas de Jeová, divididas em 26 congregações. A pregação não tem hora, mas é feita preferencialmente aos sábados e domingos pela manhã, entre 8h30min e 10h30min. Depois das 10h30min, eles não chegam nas casas, pois nesse horário as famílias estão envolvidas com a preparação do almoço. Outra regra é não aproximar-se de casas fechadas, com indícios de que os moradores estejam ainda dormindo.
Organizados, todos sabem qual é a sua área de atuação e possuem mapas das regiões que devem evangelizar. Os grupos jamais agem aleatoriamente. Um coordenador determina quais ruas e quais casas devem ser visitadas. A cada dia, anotam detalhes em uma ficha: havia alguém em casa? A pessoa aceitou ou não recebê-los? Disse estar ocupada? Prefere que não a visitem novamente? Os relatórios são compartilhados com o grupo.
Com tanta organização e Salões do Reino (como são chamados os locais de encontro) espalhados em dezenas de bairros de Caxias, fica difícil encontrar alguém que nunca tenha recebido a visita de uma dupla de Testemunhas de Jeová.
Crenças
Independentemente de ter ou não aberto a porta, sempre fica a curiosidade. Por que eles se dedicam a esse trabalho justamente nos seus - e nossos - horários de folga?
Embalada por essas e outras questões, o Almanaque acompanhou, em pleno período de Carnaval, um pouco da rotina das congregações Panazzolo e Cinqüentenário. Encontrou pessoas das mais diferentes profissões com uma convicção em comum: é fundamental estudar, entender e seguir o que está na Bíblia. Para eles, essa é a forma de ser salvo e pertencer ao Reino de Jeová (nome usado para denominar Deus).
Acreditam que não há céu e inferno, mas haverá um dia em que o planeta Terra se transformará em uma terra paradisíaca. Somente os justos farão parte desse reino (ficando a critério de Jeová julgar quem é merecedor ou não).
Entendendo a Bíblía
Dalva explica que o principal objetivo da pregação é conquistar estudantes bíblicos. Ou seja, depois de receber a primeira visita, se houver interesse, a pessoa pode solicitar a presença semanal de um orientador para estudar a Bíblia. As Testemunhas de Jeová não têm uma Bíblia diferente, tanto é que costumam solicitar o livro do próprio morador para apontar os ensinamentos. Toda a doutrina e conhecimentos são estritamente baseados no livro sagrado - por isso, costumam citar capítulos e versículos com freqüência.
Foi o estudo que fez Dalva ingressar na religião, e é o orgulho que tem em relação às pessoas que orientou que a faz continuar.
- Sempre li a Bíblia, mas não entendia. Assim como fui ajudada, desejo que outros tenham essa alegria. Não há o que pague ver uma família feliz, bem estruturada. Muitos encontram esse caminho entendendo e vivendo o que diz a Bíblia - prega Dalva.
Sem medo do não
Em 23 anos de pregação, Dalva já levou muitos "nãos" e viu muitas portas fechadas.
- Fiquei com lágrimas nos olhos quando uma senhora gritou "por que você vem me incomodar?". Mas isso me fortaleceu, logo fui para outra casa - conta.
O comerciante Osmar Scur, 55, era um desses moradores nada receptivos às Testemunhas de Jeová. Ele temia falsos profetas e não gostava de receber visitas dos pregadores. Hoje, ele, a esposa, os dois filhos e o genro praticam a religião. Scur é um dos coordenadores da Congregação Cinqüentenário. O filho Diego Scur, 26, especializou-se em Língua de Sinais e presta serviços voluntários em uma congregação de surdos. A filha Indioara Scur Bazzan, 24, conheceu o marido durante os trabalhos voluntários da construção de um templo.
- Tinha outra religião e vi muitas mentiras, coisas que não fechavam com as minhas idéias. Fiz uma oração pedindo que, se houvesse alguma religião correta, Deus me mostrasse - relembra.
Abrindo a porta
A resistência de Scur aos pregadores só diminuiu depois que ele e a esposa, Maria Elisa Dalla Vechia Scur, 52, autorizaram o filho, então com nove anos, a iniciar os estudos. Obviamente, o comerciante não deixaria o pequeno sozinho com os religiosos durante os primeiros dias. Juntamente com o menino, fazia uma enxurrada de perguntas. Satisfeito com as respostas, começou a estudar também.
- Minhas dúvidas foram respondidas dentro da minha Bíblia. Ela é a palavra sagrada de Deus, não é o pensamento de uma pessoa, um padre, um pastor.
Embora tenha aceito os ensinamentos, as dúvidas e questionamentos de Scur não cessam. O comportamento é semelhante para grande parte das Testemunhas de Jeová. É por isso que eles dedicam pelo menos cinco horas semanais aos encontros, além de realizar estudos em pequenos grupos ou em família.
Busca por respostas
Ex-morador de Canela e filho de uma família pioneira de Testemunhas de Jeová na cidade, o genro de Scur, Silzo Bazzan, 31, acredita que os estudos incentivam a permanência dos jovens na religião.
- A testemunha de Jeová não reprime a dúvida, ao contrário, estimula que todos procurem respostas - afirma Bazzan, ficou afastado da religião entre os 15 e 19 anos, depois retornou.
- A curiosidade te faz buscar outras coisas, mas percebi que a minha vida "fora da Bíblia" não seria boa. E a Bíblia é assim, ela te mostra o caminho, mas tu só segue se quiser - ressalta.
Na congregação Panazzolo, duas jovens do grupo de pregação chamam a atenção. Manuela Luiza de Camargo, 13, e Andiara Karen Becker, 22, ajudam a derrubar estereótipos. Elas gostam de andar bem arrumadas, com um pouquinho de maquiagem, cabelos bem cuidados. Não se consideram vaidosas, apenas gurias comuns. Andiara concorda que a adolescência é o período em que todas as dúvidas ganham proporções maiores e a pressão dos amigos para deixar a espiritualidade de lado é grande.
- Podemos ir a festas, mas nessa época querem que você fique com qualquer um. Não concordo, pois o namoro é o período para conhecer alguém melhor, talvez até o futuro marido - diz a garota, que casa em maio com o primeiro menino que beijou.
Decisão consciente
Manuela não gosta quando os amigos pensam que seu comportamento é regido por proibições.
- Temos liberdade para decidir o que queremos. A gente conhece o que está fazendo.
Andiara afirma que pesquisou outras religiões antes de decidir-se pelo batismo.
- Não sou do tipo que os pais falam "tu vai ser isso ou aquilo" e eu aceito e pronto - diz, convicta.
Na mesma linha de defesa dos estudos está a mãe de Andiara, Laídes Metz Becker, 49. Ela foi batizada há 20 anos, é assistente social, mas dedica-se em tempo integral à orientação de estudos religiosos e à pregação.
- Essa religião me fez raciocinar sobre a Palavra, pensar, procurar respostas. Não entendo quando nos questionam se sofremos lavagem cerebral. Como vai ser lavagem cerebral se o que mais fazemos é raciocinar? - alfineta.
Vizinha receptiva
Vizinha do Salão do Reino do bairro Panazzolo, a doceira Florinda Strey, 55 anos, é católica, mas não se importa em receber as Testemunhas de Jeová. Ela conta que as visitas são rápidas, de aproximadamente 10 minutos, e ocorrem, em média, de três em três meses. Depois que ficou diabética, Florinda tem mais dificuldade para ler a Bíblia por causa da perda de visão. Então gosta de conversar com as Testemunhas.
- Eles sabem que eu sou católica, não ficam insistindo em mudar minha opinião, nem falando sobre o final do mundo. Eles vêm aqui, lêem alguns trechinhos e muita coisa coincide com o que os meus pais e avós me ensinavam. Nunca neguei uma visita - conta.
( janaina.silva@jornalpioneiro.com.br )
Vocabulário
Salão do Reino: É o local onde ocorrem as reuniões. Equivalente a Templo ou Igreja (mas essas palavras não são usadas como sinônimos).
Reunião ou encontro: Não há "missas", mas encontros semanais.
Congregação: Grupo de Testemunhas de Jeová de uma mesma comunidade. Várias congregações podem utilizar o mesmo Salão do Reino, mas cada congregação é responsável por pregar em uma área geográfica.
Ancião: pessoa considerada madura espiritualmente, não é sinônimo de idoso. Não há idade mínima, o que conta é a experiência religiosa. As congregações são coordenadas por conselhos de anciãos. Não há pastores.
Progredir: termo usado quando o estudante bíblico está próximo de ser batizado. "Fulano progrediu (nos estudos)".
"Conhecer a verdade": ser apresentado à religião ou à Palavra.
Multimídia
Dalva Teresinha dos Santos e Cleni Laindorf dedicam cerca de 70 horas mensais como voluntárias na pregação e na orientação de estudos bíblicos
Elisa, Scur, Indioara e Silzo formam uma família unida pela mesma fé
Manuela, 13, e Andiara, 22, integram Congregação Panazzolo
Florinda é católica, mas aceita a pregação da família Rigotti
Saiba mais
Diferenciais
Doações são voluntárias
Transfusão de sangue
Vocabulário
Salão do Reino: É o local onde ocorrem as reuniões. Equivalente a Templo ou Igreja (mas essas palavras não são usadas como sinônimos).
Reunião ou encontro: Não há "missas", mas encontros semanais.
Congregação: Grupo de Testemunhas de Jeová de uma mesma comunidade. Várias congregações podem utilizar o mesmo Salão do Reino, mas cada congregação é responsável por pregar em uma área geográfica.
Ancião: pessoa considerada madura espiritualmente, não é sinônimo de idoso. Não há idade mínima, o que conta é a experiência religiosa. As congregações são coordenadas por conselhos de anciãos. Não há pastores.
Progredir: termo usado quando o estudante bíblico está próximo de ser batizado. "Fulano progrediu (nos estudos)".
"Conhecer a verdade": ser apresentado à religião ou à Palavra.
Multimídia
Dalva Teresinha dos Santos e Cleni Laindorf dedicam cerca de 70 horas mensais como voluntárias na pregação e na orientação de estudos bíblicos
Elisa, Scur, Indioara e Silzo formam uma família unida pela mesma fé
Manuela, 13, e Andiara, 22, integram Congregação Panazzolo
Florinda é católica, mas aceita a pregação da família Rigotti
Saiba mais
Diferenciais
Doações são voluntárias
Transfusão de sangue







