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Papai Noel não vai à Etiópia – A relação entre o nascimento de Jesus e o sentido do Natal
Leonardo Silvino - Publicado em 07.12.2006
O que Jesus de Nazaré tem a ver com o Natal atual? Muito pouco. Seus ensinamentos têm pouca relação com a atual festividade natalina. O próprio nome é contestado. Nos países de língua inglesa alguns sugerem a troca da palavra “Christmas”, pois de “Christ” o Natal não tem quase nada mais. A guerra do natal impulsionou os comerciantes a trocar a palavra “Christmas” por “Holiday”. Em 2005 ficaram famosos os casos da Sears e Kmart. As gigantes trocaram o termo cristão e tiveram de refazer as suas campanhas de natal. Os anúncios originais da Kmart divulgaram uma “Huge Holiday Sale” (Enorme liquidação de Feriado). Com a maciça reclamação dos consumidores indignados, eles trocaram para “Huge Christmas Sale”. Os desavisados nem notaram, já que o cartaz era semelhante. A maioria não nota a mudança nos cartazes nem o original significado do natal, mas são guardiões da tradição. O natal deveria celebrar o nascimento de Jesus. Deveria, mas como saber exatamente a data do nascimento de um carpinteiro que nasceu dois mil anos atrás? Não se pode afirmar precisamente em que ano Jesus nasceu. Muito menos o mês e o dia certo. Segundo relatos históricos da Bíblia, combinados com outros manuscritos, alguns historiadores acreditam que Jesus nasceu entre 21 e 24 de agosto do ano 7 a.C. Ou seja, Jesus nasceu antes de Cristo!
O nome escolhido da festividade varia nos diversos países que ela é celebrada. São variações de nomes para denominar o nascimento do Cristo. Nos países de línguas latinas deriva de “Natividade”, nos de línguas anglo-saxônicas de “Missa de Cristo”. Na Alemanha é Weihnachten (Noite Bendita). Em todos os casos a origem da data real do nascimento do Cristo foi modificada para se ajustar a uma data comemorada anteriormente por vários povos.
A escolha da data do Natal foi política. Durante uma semana no final de dezembro os romanos comemoravam a Saturnália para homenagear o deus Saturno, adaptação do deus grego Cronos - filho do Céu (Urano) e da Terra (Gaia). Os romanos o cultuavam como o deus da agricultura e da colheita. Saturno (Cronos) era um titã que mutilou os pais com uma foice dada por sua mãe; entretanto, ele foi expulso dos céus por seu filho Júpiter (Zeus). Refugiou-se no Lácio (região da cidade de Roma) e ensinou aos homens a agricultura.
Em 354 o bispo romano Libério instituiu oficialmente o nascimento de Jesus, fixando a data em 25 de dezembro.
A Igreja queria cristianizar as festividades pagãs que os vários povos celebravam no Solstício de Inverno – Dia em que um dos pólos da Terra está mais afastado do Sol. No hemisfério norte é o início do inverno.A Igreja reconhece que a Páscoa e o Corpus Christi são mais importantes que o Natal. De certo modo os povos do norte arranjaram um modo de continuar a celebrar os festivais de inverno. Os romanos, assim como outros povos, achavam que o solstício acontecia no dia 25.O imperador Marco Aurelio Antonio tentou emplacar o culto sírio ao deus Elagabalo Sol Invicto, um deus de Emesa, sua cidade natal na Síria. O excêntrico imperador não teve sucesso na troca de Júpiter por seu deus, e acabou conhecido como Heliogábalo (Heliogabalus).
O imperador divorciou-se cinco vezes. Gostava de se maquiar em excesso, sendo considerado um transexual por alguns historiadores. Seu comportamento e idéias não agradaram muito. Foi assassinado junto com sua família pelos soldados. Os corpos foram jogados na rede de esgoto rumo ao rio Tibre.
Para os persas e indianos Mitra era a deusa solar que representava o bem e a libertação da matéria. Desde a Antigüidade a data de seu nascimento também era 25 de dezembro. Alguns imperadores romanos a cultuavam também. A associação com o Deus Elagabalo era evidente. Mitra foi denominada Protetora do Império. Inspirado em Mitra, o imperador Aureliano criou um feriado para todo império para a realização do festival Natalis Solis Invicti, em 274. Esta data era comemorada em 25 de dezembro para homenagear o Deus Sol Invicto. Uma forma de absorver outras culturas, mas que oficialmente era negado que Mitra era a inspiração do Deus Sol Invicto. O nascimento do Invicto servia para separar o tempo, assim como o nascimento de Mitra.
As relações do nascimento de Mitra com o nascimento de Jesus são evidentes. O mitraísmo era um forte concorrente do cristianismo em seus primeiros séculos no império até a conversão de Teodósio, que instituiu o cristianismo como única religião permitida no império multicultural. A escolha do nascimento de Jesus não foi por acaso. Será que o próprio aprovaria a sua mudança de data de nascimento? Para os cristãos isto tem tanta importância quanto a mudança do sentido do Natal?
O que aprendemos com os relatos históricos é a constante apropriação de valores religiosos e culturais com intuito político. Se não pode vencê-los, junte-se a eles. Os romanos absorveram dos gregos, sírios e persas e demais culturas subjugadas as mitologias, festas e rituais. Os católicos se apropriaram deste histórico para criar uma nova data de nascimento para o Salvador. A data de nascimento de Cristo foi inventada para que os romanos e demais povos absorvessem melhor a nova religião. Assim como a figura do Papa é uma adaptação dos chefes pagãos e o sincretismo religioso no Brasil absorveu as religiões africanas.
O sincretismo religioso faz parte de todas as religiões. À medida que os povos têm domínio sobre outros sua cultura e religião também são incorporados. Na transformação das religiões africanas no Brasil temos um exemplo de sincretismo. Entretanto, acusar o sincretismo de todos os males é um caminho bastante fácil. O sincretismo faz parte das culturas da mesma forma que a miscigenação. Ele é incorporado pelo dominador e pelo dominado, que para se integrar na cultura dominante ajuda a moldar o processo. Nem sempre o sincretismo significa adaptação ou catequese. Os escravos africanos trouxeram diversas religiões consigo de diversos dialetos e idiomas. Não apenas uma. É inegável que o sincretismo favorece mais ao dominador. O dominado aceita à força uma nova realidade. O candomblé, por exemplo, incorporou elementos do catolicismo, assim como a religião católica incorporou elementos do candomblé. Como seriam os cultos neopentecostais sem as religiões africanas Em 354 o bispo romano Libério instituiu oficialmente o Natal em 25 de dezembro. A Igreja Ortodoxa comemora o natal em 7 de Janeiro, por que mantém fiel ao calendário Juliano, substituído pelo calendário gregoriano em 1582.
As mensagens e ensinamentos de Cristo pouco têm a ver com o atual natal. Além do comércio desenfreado qual a relação entre Papai Noel e o nascimento do Cristo? São Nicolau Taumaturgo ajudava os necessitados anonimamente no século IV. Não era celebridade. Não queria ganhar o Nobel da paz pregando a coexistência dos povos.
São Nicolau colocava nas chaminés das casas moedas de ouro retiradas de um grande saco que carregava consigo. Foi declarado santo. Obviamente histórias foram criadas para nascer o mito do Papai Noel (Pai Natal em Portugal). São Nicolau é o santo padroeiro da Grécia, Noruega e Rússia.
Em 1822 Clemente C. Moore impulsionou a criação do Papai Noel. No conto “Uma visita de São Nicolau”. Ele descrevia-o num trenó puxado por renas. O cartunista Thomas Nast fez a primeira versão moderna do visual do Papai Noel na edição especial de Natal da revista Harper’s Weeklys de 1886. Sua indumentária lembra as dos bispos católicos. Na Internet se divulga muito um mito que a Coca-Cola influenciou das vestimentas do Papai Noel. Antes de estrear nas propagandas natalinas da Coca-Cola em 1930 o Papai Noel já havia aparecido em outras propagandas de grandes empresas. Já era Pop Star.
E o que tudo isso tem a ver com o Papai Noel e entrega de presentes? Na festa Saturnália havia a troca de presentes. O costume foi relacionado com a história dos Três Reis Magos. Baltasar, Melquior e Gaspar teriam visitado Jesus pouco após o seu nascimento. Melquior ofereceu ouro; Baltasar incenso; e Gaspar mirra. Para a Igreja é a confirmação da profecia que os reis reconheceriam o Messias. A troca de presentes relacionados aos reis Magos é um remendo para manter antigas tradições de outras religiões.
Dois milênios depois as tradições permanecem. O natal é a salvação do comerciante preocupado em como pagará o 13º salário. Também é a salvação para o empregado preocupado em pagar suas dívidas com o carnê das lojas. O governo preocupa-se apenas em como tirar mais dos dois sem perder votos.
Uma carga tributária absurda é necessária para manter o rombo do Estado. Em vez de criar condições econômicas para realizar um crescimento de salários real, criam-se paliativos. O 13º salário é uma hipocrisia tão grande quanto o natal. Recentemente foi aprovado o 13º salário para o bolsa-família. Interessante é que se comemoram esses paliativos como “conquistas sociais”. O sujeito recebe vale-isso e vale-aquilo para disfarçar o salário indigno. Essas enganações encobrem o lento e gradual empobrecimento da classe média. Se mantiver este ritmo chegará o dia em que o bolsa-família não terá mais recursos, já que as classes serão reduzidas a apenas duas: os que nunca sustentaram esse programa e os que recebem dinheiro do programa.
O Natal é uma hipocrisia. Os consumidores costumam ser mais hipócritas nesta época do ano. Nas lojas de 1,99 não se importam em que condições foram criados os brinquedos baratos. Também não se importam em associar presentes caros aos ensinamentos cristãos.
Papai Noel não vai à Etiópia porque as crianças que não comem não ganham brinquedo! Os presentes de Natal foram criados para as crianças que podem comer. As que não podem que recebam a ajuda da ONU! Este é o verdadeiro espírito natalino que a programação de fim de ano não passa.
A solidariedade do Natal sem Fome e Criança Esperança é passageira. É uma solidariedade que tem pressa. Pressa para limpar a consciência. Pressa para esquecer. Quem se importa com a auditoria das contas dessas campanhas? Obviamente tem muita gente honesta, mas o inferno está cheio de boas intenções. O esquecimento é um ato repetitivo. Em qual deputado estadual você votou nas eleições de semanas atrás?
No país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza celebramos o natal com pinheiros e nozes. Esperamos o Papai Noel entrar na chaminé que não tem em casa, distribuir os presentes fabricados nos países asiáticos por um escravo. Vamos celebrar o Natal com lâmpadas baratas. Viva a hipocrisia!
O Natal é celebrado em quase todo o mundo. Até mesmo nos países de minoria cristã. Existem diferenças entre as tradições natalinas. Na Colômbia e outros países da América do Sul quem entrega os presentes é "El Niño Jesus"; na Polônia e Alemanha, por exemplo, o Papai Noel envia presentes em duas ocasiões - no dia 6 e no dia 25 de dezembro. Na Hungria Papai Noel faz a entrega no dia 6 e o Menino Jesus no dia 25; na Espanha os presentes são entregues no dia 6 de janeiro; na Escócia no dia 31 de dezembro. Para famílias mais abastadas destes países "Papai Noel" entrega os presentes nos dois dias e o papai e a mamãe pagam as contas do cartão de crédito em janeiro. Para os pobres o Papai Noel não aparece nenhum dia do ano. Periferia é periferia. Em qualquer lugar.
Na Holanda e Bélgica os presentes também são dados no dia 6 no Sinterklaas. Nestes e em outras localidades Papai Noel é acompanhado pelo Zwarte Piet (Pedro Negro), ajudantes do "bom velinho" que usam o mesmo nome medieval do Diabo. Diz a lenda que São Nicolau venceu o diabo e o fez de escravo. A clara conotação racista mudou com o tempo. No século XIX a história foi modificada: Pedro Negro tornou-se um ajudante de Papai Noel que veio da África. Nos dias do politicamente correto a explicação é que Pedro ficou sujo com a poeira das chaminés e por isso tem a pele escura. Como se a condição de trabalho das crianças que limpam chaminés fossem ótimas. Atualmente Zwarte Piet não é tão zwarte assim. Nas versões modernas ele pode ser vermelho, azul, verde, etc. Zwarte Piet também é conhecido em diversos países com algumas variações: Père Fouettard na França; Ruprecht, Knechtruprecht ou Krampus na Alemanha; e Bicho Papão no Brasil e Portugal, sendo que neste caso Papai Noel não tem nada a ver com a história, e, portanto, não paga o 13º salário para o monstro. Em alguns países os anjos ajudam a entregar os presentes. Eles carregam um livro com as anotações dos comportamentos das crianças durante o ano. Do mesmo modo eles servem para educar as crianças através do medo. Não é muito diferente da onipresença de Deus e da punição eterna no Inferno. A história que os pais contam são sempre as mesmas independentes do currículo do Zwarte Piet - Não seja malcriado ou o Bicho Papão vai pegá-lo. Não sei por que, mas isto me lembra as pichações de políticos nos muros: “Fulano vem aí”.
Nos países eslavos o similar do Papai Noel é o Ded Moroz (algo como Vovô Gelo). Ded Moroz traz também presentes para as crianças. Contudo ele não comete o crime de invasão de domicílio. Ded Moroz entrega os presentes pessoalmente, acompanhado de sua neta Snegurochka. Seu uniforme pode ser vermelho ou azul, mas a barba branca é a mesma. Para os russos Ded Moroz mora em Veliky Ustyug, na Rússia; para os Bielo-russos em Belavezhskaya Pushcha, na Bielorússia. O Vovô Gelo é nacionalista!
Na Bielorússia o personagem foi introduzido pelos russos para substituir São Nicolau. Era muito mais conveniente para os comunistas usar um personagem do que um santo. Tudo que era religioso era um perigo para o bloco soviético. Em 1928 os russos proibiram as Árvores de Natal e Vovô Gelo foi perseguido. Stálin voltou atrás em 1935. Aprendeu que banir tradições não vale a pena. Deve ter aprendido a lição com outro ditador, Benito Mussolini: “Não se intrometa na moda das mulheres e na religião dos homens.” Em 1937 Vovô Gelo voltava a aparecer nos países do bloco soviético. Os personagens mudam, mas a história se repete.
Na Eslovênia o Vovô Gelo se veste de cinza e é magro. Na Holanda e em países da Europa Central Sinterklass chega num cavalo branco, que é substituído por um burro em regiões da França, Bélgica, Luxemburgo e Suíça. Apesar de todas as diferenças de personagens e datas o significado do Natal em poucos casos é realizado para celebrar o nascimento de Jesus.
Os correios de todo o mundo recebem anualmente várias cartas de crianças que enviam cartas com os mais diversos endereços, mas sempre para a Casa de Papai Noel. Alguns funcionários ficam encarregados de respondê-las. Uma anedota sobre este tema: um menino escreve uma carta não pedindo brinquedo, mas R$ 100,00 ao Papai Noel para cobrir despesas da família. Os funcionários dos Correios se sensibilizam com o pedido. Eles juntam suas economias e conseguem enviar apenas a metade do dinheiro. No ano seguinte o mesmo menino envia outra carta agradecendo ao Papai Noel pela ajuda, mas pede para que não enviar dinheiro pelo correio: “por que lá só tem ladrão”. Nem sempre ajudar alguém lhe trará recompensas. Não é este o espírito cristão? Por falar em residência do Papai Noel, a Finlândia reclama para si o título de endereço oficial do “bom velinho”. Na colônia finlandesa do Penedo, estado do RJ, Papai Noel está em toda a parte. Vários estabelecimentos e até um Shopping tem o nome em sua homenagem. Os finlandeses trouxeram a tradição do Joulupukki para o Brasil. Na Finlândia existe turismo especializado em conhecer a Casa do Papai Noel na Lapônia, além da aurora boreal, o sol da meia noite e demais atrativos do belo país da Escandinávia.
A figura de Joulupukki era bem diferente do "bom velinho" antigamente. Ao invés de dar presentes ele exigia-os às crianças aterrorizadas. Mais uma vez surge o processo de aculturação. O Papai Noel pagão foi levado ao Quarto 101 e agora é só alegria para as caixas registradoras de todo o mundo. O comércio explorou as atitudes de São Nicolau. Pouco importa suas atitudes beneficentes, o que importa para eles é faturar. Em muitas empresas o natal representa uma parcela considerável nos lucros anuais, assim como os ovos de chocolate na Páscoa. A história de um coelho que distribui ovos é mais ou menos absurda que um senhor de idade que roda ao mundo nos céus para distribuir presentes? Estas duas são tão fantásticas quanto a humanização de Deus para os não-cristãos.
O natal é feriado nacional no Japão e na Coréia do Sul, em alguns estados da Índia. Em muitos casos o feriado foi decretado devido ao lobby do comércio. A data é celebrada em todos os continentes. Não subestime o processo de uniformização mundial! Ele é muito mais potente do que se imagina. Em qualquer lugar do mundo os shoppings centers têm a mesma alma. Eles diferem entre si, mas o propósito é o mesmo. Fazê-lo esquecer que horas são para impulsionar as vendas. Os shoppings são o modelo da uniformização gradual do mundo.
O espírito natalino é presa fácil para o lucro de ocasião: livros, discos, músicas, encenações, tudo pode render muito em nome do Natal. Na cultura popular muitas canções foram feitas para o Natal. Alguns artistas chegaram a compor álbuns completos com versões natalinas. Lembra de Happy Xmas (War is Over) de John Lennon? Elvis Presley também gravou “Blue Christmas”. A lista é extensa e diversa: Nat King Cole, Frank Sinatra, Travis, Celine Dion, The Carpenters, Madonna, Everything But The Girl, Bon Jovi, Jackson 5, Bruce Springsteen, Tony Bennett, Dolly Parton, Raimundos, The Pretenders, Mariah Carey, The White Stripes , Tom Petty, The Who, Run-DMC, Bryan Adams, Depeche Mode, The Beatles, Pet Shop Boys, Britney Spears, David Bowie, Ramones, U2, Roy Orbison, Elton John, Stevie Wonder, Queen, Paul McCartney e muito mais. Sem contar na inacreditável “Papai Noel Batuta” dos Garotos Podres. Depois de escutar essa música “Bate o Sino” nunca será a mesma.
Existem exemplos bizarros. A música “O Natal Existe” foi criada para um comercial de TV. Sua melodia marcante foi comprometida por uma letra que dava margens a outras interpretações. Quem nunca cantou “Quero ver você não chorar, não olhar pra trás, nem se arrepender do que faz. Quero ver o amor vencer, mas se a dor nascer você resistir e sorrir... Se você pode ser assim, tão enorme assim...”. Nunca tinha reparado no duplo-sentido? Então cante os primeiros versos de “Daniel na Cova dos Leões” com atenção.
Existem muitos filmes produzidos sobre o natal. O melhor é It's a Wonderful Life (A Felicidade Não se Compra) de Frank Capra, rodado em 1946. Este é uma exceção porque além de ser um excelente filme, é uma trama que utiliza o espírito natalino para realçar um drama humano, não o contrário.
O drama humano era o que se vivia na época do Cristo. Os judeus viviam numa terra ocupada e estavam divididos, inclusive na chegada do Messias. Acho interessante que a maioria das Igrejas Cristãs não mencione que Jesus era judeu. Durante os séculos os anti-semitas criaram o fato de que os judeus mataram cristo. É contestado inclusive se Judas Iscariotes tinha mesmo este nome. Ioudas (Judas em grego) é uma transliteração do nome hebraico Judá.
O anti-semitismo distorceu a história da condenação de Cristo. O filme “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson foi acusado por religiosos de ser anti-semita. Não sei. Parece-me claro que a culpa da morte de Jesus não foi apenas de um grupo, mas de todo o contexto histórico. Quem culpa os italianos pela morte de Jesus? Quem teve a culpa? Romanos, judeus ou o Jesus (histórico) tentou uma missão suicida. A resposta pode estar no apócrifo Evangelho de Judas. Este conta que Jesus pediu para Judas Iscariotes o trair. Judas é apresentado como o discípulo mais fiel e por isso teria a tarefa mais difícil. O Alcorão retrata Jesus como Profeta. No livro sagrado do Islã uma outra pessoa teria sido crucificada em seu lugar.
Jesus chamou a atenção porque trouxe uma mensagem diferenciada. Suas mensagens traziam ensinamentos da sabedoria milenar do Oriente. Ele era contrário a idéia de combater o fogo com fogo. E isto nada tem a ver com o Natal, principalmente com o comércio natalino.
Quase pouco se sabe sobre quem realmente foi Jesus. Os romanos crucificaram várias pessoas contrárias ao seu regime em condições semelhantes. Apesar dos esforços de arqueólogos e historiadores Jesus não deixou nenhum texto. Apesar de saber outros idiomas e culturas, Jesus vivia numa cidade multicultural e não era analfabeto. Não escreveu nada porque sabia que os textos seriam editados para usos contrários à sua conduta.
Não adiantou muito. Os espertos que viram no cristianismo um grande potencial para amansar o povo. Editaram sua vida para torná-lo ainda mais especial. Sabiam que tinham a oportunidade de criar uma nova religião que o povo se apagasse. Afinal, era a história de um deus que nasceu pobre, que veio para combater as injustiças e trazer a esperança em seu Reino. A esperança pode ser sempre renovada com a força do povo. O povo faz força e o representante do povo descansa. O povo sonha e o esperto lucra. É uma troca consentida, não um roubo como parece.
Com o passar do tempo Papai Noel passou a tomar lugar de Jesus Cristo para representar a festa natalina. Inicialmente as Igrejas Cristãs não gostaram da idéia. No século XVI grupos protestantes e, mais parte, puritanos da Inglaterra e EUA baniram o feriado, classificando-o ora como pagão, ora como católico. Durantes os séculos seguintes o Natal não foi visto com bons olhos, principalmente com a adesão de lendas pagãs. Até hoje as Testemunhas de Jeová se recusam a comemorar a data, assim como aniversários e Dia de Ação de Graças. Existe coerência nisto. Com o Papai Noel os pais assumem uma posição de enganar as crianças.
A maioria celebra sem se dar conta dos significados ou dos propósitos do natal. É a época de rever os parentes e através da hipocrisia imunizar um pouco os sofrimentos e tentar dar sentido às nossas vidas.
E o que deve ser feito, acabar com o Natal? Não creio. Assim como o 13º salário o fim do natal não trará nenhuma melhoria. Duvido muito que com o fim das "conquistas dos trabalhadores" os valores totais sejam incorporados aos salários. Ocorrerá uma gradual redução de quanto o trabalhador leva no fim do mês para o seu bolso. O fim do natal é a mesma coisa. O fim do Natal vai acabar com séculos de hipocrisia?
A associação dos presentes dos reis Magos com a tradição milenar da festa do Sol fez uma mistura tão grande que o Natal tem muito pouco sentido para os cristãos. E também para os não-cristãos. Renas voadoras, presentes em chaminés e um velho barbudo em alta velocidade não são muito razoáveis. Pense nisso. As mensagens na Bíblia são mais importantes do que sua veracidade. Noé não teria madeira suficiente em todo o planeta para construir uma embarcação que suportasse um par de cada espécie. Da mesma forma, Papai Noel levaria milhares de anos para entregar todos os presentes.
Existem boas histórias relacionadas com o Natal. Na Primeira Guerra Mundial tropas aliadas e alemãs paralisaram uma batalha nos Flandres belgas para celebrar a data. Os alemães fizeram pequenas árvores de natal nas trincheiras cheias de lama. Franceses e ingleses cantavam músicas natalinas do outro lado. A trégua foi proposta com cartazes em inglês macarrônico. Eram rapazes que lutavam entre si que deixaram suas namoradas e famílias para trás, enquanto os políticos ingleses, franceses e alemães comemoravam o natal em confortáveis ambientes. Durante a tentativa de trégua alguns dos enviados morreram. Os inimigos desconfiavam de armadilhas. Faixas dos dois lados foram colocadas para convencer do cessar-fogo. No meio do campo de batalhas, entre os mortos a trégua espontânea aconteceu. Entre a troca de bolos e bebidas alguém trouxe uma bola. Segundo os relatos alemães, eles venceram o combinado de franceses e ingleses por 3 a 2.
Esta história incrível foi narrada no livro "Silent Night: The Story of the World War I Christmas Truce" de Stanley Weintraub. O livro inspirou o filme “Merry Christmas” (Joyeux Noël) de Christian Carion, que em 2005 foi indicado ao prêmio de melhor filme em idioma estrangeiro no Oscar, BAFTA e Globo de Ouro, além de ser indicado em seis categorias do César.
Os generais não ficaram felizes com a cumplicidade entre tropas inimigas. Guerra é guerra. Após o natal eles começaram a atirar, mas do outro lado não estava o inimigo. Estava o Fritz, o Pierre e o John. Eles atiraram propositalmente para não acertar o alvo. A única saída que os generais encontraram para alguém vencer a batalha foi trocar as tropas. E assim começou um ano novo sangrento.
Feliz Natal? Feliz Ano Novo?