
23/11/2006 19:03:41 - Agência EFE
Cinqüenta menores vivem "completamente isolados do mundo", na seita Tabitha's Place, no sudoeste da França, país onde 60 mil crianças são manipuladas por diferentes grupos sectários, segundo publica hoje o jornal "Le Parisien".
Segundo a Missão Interministerial de Vigilância e Luta contra os Desvios Sectários (Miviludes), 600 crianças das 60 mil que "crescem na França sob o jugo das seitas são vítimas de graves maus-tratos psicológicos, físicos e às vezes sexuais", informou o periódico.
A situação das 50 crianças e adolescentes da Tabitha's Place, "vítimas da ideologia de seus pais, que impõem a elas o estilo de vida dos primeiros cristãos" foi revelada ao jornal por quatro deputados da missão oficial contra as seitas.
O grupo visitou de surpresa, na terça-feira passada, a antiga casa onde vivem há 23 anos os membros de Tabitha's Place, no centro da cidade de Sus.
Lá, "os brinquedos são proibidos" e "nunca se ouviu falar em Zinedine Zidane", explicaram ao diário os deputados, que ficaram "comovidos" com a visita.
Uma equipe do jornal viajou ao lugar e constatou que a porta da mansão, em frente à Prefeitura de Sus, está sempre "totalmente aberta e ninguém se esconde quando chega um estranho, a quem se oferece um bolo caseiro e um copo de mate".
Os autodenominados "líderes da tribo de Abraão" defendem seu direito à "liberdade educacional" segundo a Bíblia, da qual fazem uma leitura "muito literal, quase caricatural", publicou o "Le Parisien".
Eles se dizem "incompreendidos" pelo mundo exterior, "corrompido e perverso", mas a maior parte deles "tem um telefone celular ao alcance da mão", destacou o rotativo.
Os membros da seita, criada em 1979 nos EUA, vivem na França fundamentalmente da agricultura orgânica e a fabricação de móveis de madeira.
Em suas rígidas crenças bíblicas, se levantam com o sol e não bebem, não fumam, não assistem televisão e nem lêem livros que não sejam sagrados; as relações sexuais são proibidas antes do casamento e os avanços médicos também não são bem-vindos.
O secretário da comissão de investigação parlamentar sobre as seitas e os menores, deputado comunista Jean-Pierre Brard, disse ao diário que esta é "uma fábrica de insociáveis".
"Nosso papel" é, em primeiro lugar, "identificar fatos constatados e concretos" e "elaborar recomendações legislativas ou sugerir regulamentações", mas, neste caso concreto, existe "um verdadeiro risco psicológico" devido à "reclusão intelectual".
Os pais "não são proprietários de seus filhos" e, caso sejam incapazes de criá-los, é o Estado que "deve garantir o bem-estar" das crianças, de forma que é preciso dar "mais poderes aos serviços públicos de educação para garantir a saúde física, moral e intelectual" delas, considerou.
A justiça e os responsáveis trabalhistas devem também cumprir "seus deveres", pois, na seita, "os direitos não existem", acrescentou.
Esta não é a primeira ocasião em que há problemas com a Tabitha's Place na França. Em 2001 os pais de um bebê de 19 meses foram condenados a doze anos de prisão por deixarem-no morrer ao impedir que recebesse o tratamento médico adequado, que era contrário às normas da seita.
Outros 19 membros desta "comunidade" foram condenados a penas de prisão por se negarem a escolarizar e a vacinar seus filhos.
A seita tem sedes nos Estados Unidos, Espanha, Alemanha, Reino Unido, Brasil e Argentina.