A maior parte dos deportados tiveram oportunidade, num momento ou noutro da sua estada na prisão ou no KZ, de tomar consciência da existência de uma categoria especial de detidos, chamados correntemente em alemão de Bibelforscher (Estudantes da Bíblia), presos devido apenas às suas convicções religiosas. Estas vítimas do nazismo não eram tão numerosas quanto outras categorias sociais ou políticas. As Testemunhas de Jeová, como vieram a ser conhecidas após Julho de 1931, eram ao todo mais de 25.000 na Alemanha pré-hitleriana. Mas a sua atitude nos campos e prisões foi bastante notável para não merecer a atenção dos contemporâneos como dos historiadores. Para compreender este fenómeno, é necessário regressar ao passado, até à criação deste movimento em 1876 nos Estados Unidos sob o nome inicial de «Grupo de Estudo da Bíblia».
O fundador deste movimento, Charles Russel, desencadeou gradualmente um conjunto de grupos de estudos bíblicos, graças a conferências que proferiu através do país. Estima-se que o número de membros nos EUA com mais de 20 anos, em 1899, fosse de 2.500. Russel morreu em 1916, tendo sido substituído por um jurista, Rutherford, que retomou nas suas mãos a Sociedade (Watch Tower Society, «Sociedade Torre de Vigia», do nome da publicação oficial do movimento a partir de 1879). Ele centraliza a hierarquia, com os dirigentes das comunidades a serem doravante designados pela direcção central em Brooklyn, Nova Iorque.
No que concerne à Alemanha, as Testemunhas de Jeová, desde há conhecidas ainda como «Estudantes da Bíblia» ou mesmo como «Fervorosos Estudantes da Bíblia» (Ernste Bibelforscher) contavam em 1933 cerca de 25.000 membros activos e aproximadamente 10.000 simpatizantes.
A recusa em usar armas
Por que um grupo humano tão pequeno foi de imediato perseguido pelos nazis acabados de chegar ao poder? A explicação é simples, ainda que as consequências estejam totalmente desproporcionadas: as Testemunhas de Jeová, não reconheciam nenhuma autoridade para além do seu Deus e dos seus dirigentes nos EUA, e recusavam participar por exemplo nas eleições. Pior, eles recusavam fazer a saudação hitleriana, o juramento à bandeira, os cânticos nazis e, por consequência, toda a adesão às organizações nazis, como à «Frente de Trabalho» ou à Juventude Hitleriana. Mais tarde, vinha a sua recusa em usar armas e em participar em qualquer trabalho relacionado com as actividades militares o que fez com que fossem perseguidos, detidos, encarcerados. Em todo o caso, foi quase de imediato que os nazis agiram contra as Testemunhas. Entre Abril e Junho de 1933, a associação foi interdita em praticamente toda a Alemanha, e os seus escritórios e a sua gráfica, situados em Magdeburgo, foram ocupados pela polícia e as SA.
Os responsáveis das Testemunhas fizeram, no entanto, desde o mês de Março, esforços junto das novas autoridades nazis no sentido de poderem prosseguir as suas actividades religiosas, mas sem nenhum sucesso. Depois que o movimento de interdição atingiu o seu auge nas cidades e nos Länder, em 25 de Junho de 1933, as Testemunhas organizaram um congresso, em Berlim, no qual participaram cerca de 7.000 dos seus membros. Foi aí adoptado o texto de uma «declaração» destinada às autoridades nazis na qual eles rejeitavam, entre outras, as acusações de serem «financiados pelos judeus ou pelos comunistas» (sic) e afirmavam a sua neutralidade política e o carácter estritamente religioso da sua actividade.
Este congresso e sobretudo a «declaração» valeram até hoje às Testemunhas de Jeová censuras veementes, acusando-as entre outras coisas de anti-semitismo, e criticando-as de terem tentado, através de manobras e de declarações hipócritas, fazerem-se aceitar pelos nazis. Não é uma questão de enveredar aqui num debate supérfluo. É certo que esta «declaração» foi uma tentativa de pelo menos conseguirem ser tolerados pelos novos dirigentes da Alemanha. E não é menos certo que este texto comportava formulações que permitiriam, posteriormente, fazer graves críticas aos seus autores. Em contrapartida, falsas acusações (sala do congresso de Berlim decorada com bandeiras nazis, por exemplo) semearam desde há muito a dúvida sobre os métodos empregues para se fazerem bem vistos pelos hitlerianos, e elas acabaram por vir a ser desmentidas.
Os nazis no poder começaram cedo a lutar contra as Testemunhas de Jeová. Enviaram-nas para a prisão ou para campos de concentração a partir de 1933, e em especial as mulheres constituíram até ao começo da guerra uma percentagem importante, sendo mesmo a maioria das detidas dos KZ para mulheres. Por que razão internavam eles os «Estudantes da Bíblia»? A maior parte das vezes foi pela difusão de literatura da sua organização internacional, importada ou produzida por eles mesmos (gráficas clandestinas foram descobertas pela Gestapo em diversas investidas), ou pela participação em reuniões (interditas) da sua comunidade. A escuta de rádios estrangeiras podia também ser usada contra eles: cita-se o caso de um Testemunha de Jeová condenado entre outros motivos por ter escutado o discurso de um dirigente americano da sua associação retransmitido pela Rádio Toulouse em 1936.
Um outro motivo eventual usado para as perseguições foi a actividade «de missão», o proselitismo com que tentavam convencer os interlocutores da justeza da sua interpretação dos textos bíblicos. A censura à sua correspondência desde 1934 permitia à Gestapo descobrir esta ou aquela actividade interdita, ou mesmo a redacção e a difusão de tratados ou outros escritos, a reconstituição de grupos após as detenções, etc. o que lhes podia valer perseguições. A «detenção de protecção» (Schutzhaft), ou a devolução à justiça eram moeda corrente, e neste último caso, uma condenação à prisão tinha toda a hipótese de ser concluída, no fim da pena, através da entrega à Gestapo para «detenção complementar» (Überhaft), em ambos os casos significando o KZ.
Executados por objecção de consciência
Como os outros detidos nas prisões e nos campos de concentração consideravam os Bibelforscher que a eles se juntavam? Sem dúvida, pelo menos de início, com curiosidade e uma certa ironia, pois eles e as suas actividades eram pouco conhecidos, numa sociedade tão politizada quanto a da Alemanha após Weimar, o que poderia parecer anacrónico. A pouco e pouco, pelo contrário, a coragem de que eles faziam prova face aos guardas das SS começou a impor-se a todos. Não apenas eles recusavam fazer todos os gestos que poderiam, na sua maneira de ver, significar um reconhecimento da autoridade do Estado, mas também vieram gradualmente a rejeitar qualquer trabalho que achassem contrário aos seus princípios. As mulheres do KZ de Moringen recusaram assim, a partir de 1936, trabalhos de costura sobre roupas recolhidas pelo «Socorro de Inverno» (Winterhilfswerk) que se exigia delas, considerando esta trabalho como um apoio efectivo ao Estado nazi. A luta iria tornar-se ainda mais dura com a militarização do Estado e com o serviço militar obrigatório em Maio de 1935 (que recusaram tendo custado a liberdade à maior parte das Testemunhas).
Inúmeros são os exemplos desta resistência às exigências dos nazis no que respeita aos trabalhos que eles achavam inaceitáveis, particularmente após o início da guerra. A recusa em serem mobilizados foi naturalmente o sinal principal, e foi apenas duas semanas depois do início do conflito que uma primeira execução de um objector de consciência, Testemunha de Jeová, teve lugar em Sachsenhausen, em 15 de Setembro de 1939. Em um ano, até Setembro de 1940, o Conselho de Guerra do Reich pronunciou contra eles 112 condenações à morte. No total, cerca de 250 Testemunhas foram deste modo executados durante a guerra devido a objecção de consciência. A recusa de trabalharem para a guerra e o exército pôde, ela mesmo, ser observada em numerosos campos. Em Buchenwald, as Testemunhas de Jeová rejeitaram maioritariamente fabricar esquis para as tropas de montanha (um pequeno número aceitou esta tarefa, o que lhes valeu serem excluídos do grupo: um sinal interessante, por outro lado, da pressão que podiam exercer os mais acérrimos observadores da organização sobre o conjunto dos membros internados com eles...).
No campo de concentração para jovens de Moringen, as Testemunhas recusaram trabalhar numa fábrica de munições do exército, que empregava um importante kommando deste campo. Apesar da feroz repressão,
as SS suavizaram a sua resistência, e resignaram-se a finalmente confiar-lhes apenas trabalhos secundários.
Em Ravensbrück, abundam os exemplos deste tipo de recusa de actividades beneficiando o exército ou a SS: recusa em descarregar palha para os cavalos dos SS, em coser os uniformes dos SS no atelier dos alfaiates, em fabricar «pequenos bolsos» apresentados como banais, mas dos quais os detidos haviam concluído tratar-se de cartucheiras, recusa em preparar pensos ou trabalhar na cozinha, sendo que ambos eram serviços de um hospital SS, ou ainda em construir um abrigo antiaéreo. As represálias foram bastante severas, também aí, com bastonada sobre todas as mulheres, independentemente da sua idade, e seu envio para Auschwitz, sem contar com alguns assassinatos não-oficiais.
Mais um exemplo: as mulheres Testemunhas de Jeová de Ravensbrück recusaram-se obstinadamente a trabalhar no «Kommando Angora», que produzia a matéria-prima das dobras para as fardas dos aviadores da Luftwaffe. Pode-se constatar aqui portanto que uma grande parte foi deixada ao livre arbítrio individual, pois o mesmo trabalho tinha sido aceite sem problema pelos seus correligionários de Neuengamme.
É preciso referir que esta atitude de resistência não era aprovada por todos os detidos. Certos «políticos» consideravam esta acções como «inúteis». Foi o caso da recusa de detidas Testemunhas de Jeová do KZ Lichtenburg em escutar a transmissão de um discurso de Hitler, o quer provocou represálias ameaçando gravemente a saúde das infractoras, obrigadas adicionalmente a escutar mesmo assim o discurso. Do mesmo modo a recusa por um pequeno grupo das suas correligionárias de Ravensbrück em receber um pequeno pedaço de chouriço a uma «refeição» (dado que a ingestão de sangue é interdita, o que explica a recusa, sempre actual, de transfusões sanguíneas), colocando por fim, pelas punições subsequentes, a sua sobrevivência em perigo, foi julgada severamente pelas outras detidas.
Tarefas de confiança nos campos
Do lado das SS, pode-se constatar uma evolução no decorrer do tempo. Desde há muito tempo, as Testemunhas de Jeová foram desprezadas e simultaneamente temidas. As suas posições eram incompreensíveis para os nazis, e a rejeição da autoridade, à qual se juntava um antimilitarismo sem concessões, não podia senão demonstrar a sua posição de inimigos. Algumas das suas características, contudo, eram bem vindas pelas SS. As Testemunhas, por exemplo, foram conhecidas por nunca se evadirem. Gradualmente, ia-se substituindo um kommando demasiado indócil por Testemunhas. Foi o caso, por exemplo, em 1939-40 no KZ de Wewelsburg (que se tornou de seguida KZ Niederhagen).
Uma outra das suas características era a recusa estrita de toda e qualquer mentira. É certo que alguns foram utilizados, conscientemente ou não, pela Gestapo, para obter informações sobre os seus co-detidos, Testemunhas ou não.
Além disso, a guerra levando para as prisões e para os KZ cada vez mais estrangeiros, as SS manifestaram a tendência, sobretudo a partir de 1941-42, para escolher os detidos da sua «hierarquia auxiliar» (chefes de caserna, aprendizes, etc.) entre os detidos alemães «do Reich», o que era o caso da grande maioria das Testemunhas de Jeová (1). Enfim, a utilização, cada vez mais indispensável, de detidos dos KZ para toda a sorte de trabalhos, nem todos de ordem militar, tornava as Testemunhas muitas vezes úteis. Lá podiam receber tarefas de confiança deixando-lhes uma certa margem de actividade, que, não demorou muito, eles utilizaram ao serviço do seu movimento. É preciso assinalar também que, especialmente desde 1943, as famílias dos SS recorreram muitas vezes a mulheres Testemunhas de Jeová como empregadas domésticas e mesmo em trabalhos familiares, muito embora à custa da deterioração dos seus direitos sobre os seus próprios filhos. Um exemplo: a viúva de Heydrich (2), que explorava uma grande propriedade, fez com que se lhe «atribuíssem» em Fevereiro de 1944 um grupo de 15 detidos Testemunhas de Jeová alemães, holandeses e checos, sendo mesmo um deles previsto como administrador (3).
Terminemos com duas citações respeitantes a esta categoria especial de detidos dos campos de concentração nazis. A primeira é uma declaração de Steffen Reiche, ministro do Land para a Ciência, a Pesquisa e a Cultura, por ocasião da manifestação central de recordação de Brandemburgo, em 27 de Janeiro de 1998 em Sachsenhausen. Segundo ele, tratava-se de mais do que apenas uma homenagem em memória das vítimas. Esta manifestação tinha uma «relação directa com a actualidade. Pois o comportamento das Testemunhas de Jeová nos campos e prisões faz prova das virtudes que, hoje como outrora, são indispensáveis para a manutenção de um Estado de Direito democrático, eu penso na sua firmeza face às SS e na sua humanidade no que diz respeito aos seus co-detidos. Em vista da crescente violência contra os estrangeiros ou contra aqueles que têm opiniões políticas diferentes, estas qualidades devem ser uma linha de conduta para os cidadãos do nosso país».
A segunda citação é de Volkhard Knigge, director do Memorial de Buchenwald, na ocasião da inauguração de uma exposição consagrada às Testemunhas de Jeová apresentada em 1997 e 1998 em Buchenwald, Sachsenhausen e Bergen-Belsen. Ele declarou: «Talvez o facto de que são "gente simples" que recusaram-se dobrar-se perante a empresa total do Estado nazi explique que a sua perseguição pelo regime nacional-socialista tenha sido esquecida durante tanto tempo, nas duas Alemanhas». Poder-se-ia acrescentar «e no estrangeiro também»...(4).
Jean-Luc BELLANGER
1) Não existem números precisos relativos aos estrangeiros no seio das Testemunhas de Jeová nos campos. De acordo com os trabalhos de Detlef Garbe, mais de 3.000 entre eles foram internados nos KZ nazis, menos de um terço sendo de nacionalidade estrangeira, entre os quais cerca de 200 a 250 holandeses, 200 austríacos, 100 polacos, e dos belgas, franceses, soviéticos, checos e húngaros, haveria entre 10 e 50 de cada país.
2) Reinhard Heydrich era o colaborador mais próximo do Reichsführer SS Himmler. Chefe da Secretaria Central de Segurança do Reich (RSHA) e organizador da «Solução final», do genocídio dos judeus da Europa, nomeado «Protector da Boémia-Morávia» (República Checa), foi abatido por resistentes em 1942. Himmler atribuiu à sua viúva uma imensa propriedade, com detidos judeus como mão-de-obra. Estes foram transferidos (enviados para câmaras de gás?) em Janeiro de 1944 e substituídos por 15 Testemunhas de Jeová vindos de Ravensbrück.
3) Himmler, que não era adepto de ideias extravagantes, ficou impressionado com a «fé fanática» das Testemunhas e tinha em vista utilizá-los fazendo-os missionários na URSS para «pacificar os russos».
4) A Associação conta hoje cerca de 6 milhões de aderentes no mundo. As suas publicações são, sem dúvida, as revistas religiosas com maior tiragem a nível mundial (em 1998, mais de 22 milhões de exemplares em 129 línguas). O fim da Segunda Guerra Mundial não significou para eles o fim das perseguições. Estima-se que a Associação estivesse interdita, de 1945 até ao início dos anos 90, em 23 países, 9 na Ásia, 8 na Europa, 3 na América latina, assim como em Estados insulares. É preciso sublinhar especialmente que a RDA (República Democrática Alemã) começou desde muito cedo a lutar contra as Testemunhas, onde a rejeição de toda a tomada de posição política e os laços americanos eram considerados como perigosos para o Estado. Detenções e uma interdição golpearam a associação em Agosto de 1950. Numerosos processos visaram condenar Testemunhas, entre os quais sem dúvida cerca de 250 sobreviventes dos KZ nazis, a pesadas penas. Constituiu-se uma direcção clandestina, que prosseguiu a sua acção depois da construção do Muro de Berlim em 1961 e após a instauração do serviço militar obrigatório em 1962. A repressão foi bastante dura. Calcula-se em cerca de 4.000 o número de condenações a uma detenção por vezes longa (perpétua em 15 casos), antes de cessarem as consequências públicas. Foi somente o último Conselho de Ministros da RDA, em 14 de Março de 1990, que pronunciou o reconhecimento oficial das Testemunhas de Jeová.
n Fonte principal: Hans Hesse (sob a dir. de), «Am mutigsten waren immer wieder die Zeugen Jehovas» («Os mais corajosos foram sempre as Testemunhas de Jeová», Perseguição e resistência das Testemunhas de Jeová sob o nacional-socialismo), Edição Temmen, Bremen, 1998.
Trad. por Carlos Queiroz