Armado com uma pistola, Waldimar Lindoso Ferreira entrou na casa da ex-mulher executando-a e a seu filho de seis anos. Em seguida, foi até a casa dos ex-sogros, os matou e à cunhada
Três horas da madrugada. O silêncio profundo que dominava o Retiro Natal, bairro encravado entre o Monte Castelo e o bairro de Fátima, foi interrompido primeiramente por oito estampidos de arma de fogo. Logo em seguida, mais oito tiros irromperam a madrugada fria. Gritos de pessoas e latidos dos cães vadios acabaram de despertar o bairro.
Acabava de acontecer uma bárbarie, talvez a maior de São Luís, nos últimos anos. Uma família, quase toda, havia sido chacinada, num gesto tresloucado de um homem, que não poupou nem mesmo o filho de apenas seis anos, que dormia placidamente.
O bairro todo acordou e acorreu para a praça Marechal Lott, local da trágica ocorrência. Um casal de idosos, duas mulheres jovens e uma criança haviam sido mortos. Uma jovem, única sobrevivente, foi baleada na boca. A Polícia foi acionada e o delegado José Antonio Alvares Mendes Sobrinho, que estava de serviço no Plantão Central da Beira-mar (Rffsa), foi ao local da bárbarie e ao deparar com o quadro dantesco, não conteve as lágrimas.” O ar cândido daquela criança morta, que parecia estar dormindo, me comoveu bastante”, disse a autoridade.
OS CRIMES
Tudo aconteceu na madrugada desta quarta-feira (26/04). O mototaxista Valdimar Lindoso Ferreira, 34, bateu à porta da casa 39 de praça Marechal Lott, onde residia sua ex-mulher Ellen Rose Matos dos Inocentes Ferreira, 31. Foi atendido. Ao abrir a porta, a mulher foi surpreendida pelo marido, de quem já estava separada fazia 2 anos, que empunhava uma pistola munida de silenciador. Ela foi atingida com 4 tiros na cabeça e morreu no local.
Valdimar seguiu para o quarto onde, vestido apenas com uma fralda, dormia o seu filho Erick Ricardo dos Inocentes Ferreira, 6. Aquele homem não hesitou em desferir 2 tiros na cabeça e outros dois no braço direito da criança, matando-a.
Sem qualquer remorso, cobriu o rosto do filho com uma fralda. Apagou as luzes da casa. Fechou a porta e saiu em direção à casa 36 da mesma rua, onde morava a família da ex-mulher . Bateu. Foi atendido pelo ex-sogro, o carpinteiro Raimundo João dos Inocentes, 60, e desferiu-lhe 2 tiros na cabeça e no tórax.
Maria José Matos Santos dos Inocentes, 54, que acompanhou o marido, também foi alvejada com 3 tiros. Ela morreu no local. Valdimar entrou na casa e no quarto, alvejou a ex-cunhada Érica Rosana Matos dos Inocentes, 27, com 1 tiro na cabeça, matando-a. Tentou fazer a mesma coisa com Eline Rosely Matos dos Inocentes. Mesmo atingida com um tiro na boca, ela reagiu, travando luta corporal com o ex-cunhado. Na luta pela posse da arma, Valdimar acabou sendo baleado na mão esquerda e fugiu em sua motocicleta. Vizinhos acorreram em socorro do carpinteiro Raimundo João e o levaram, juntamente com a filha Eline Rosely, para o Hospital Municipal Djalma Marques (Socorrão 1), mas ele não resistiu. Eline permaneceu internada até ao final da tarde quando foi transferida para o Centro Médico Maranhense.
Preso ao internar-se em hospital
Depois de promover a tragédia no Retiro Natal, Valdimar Lindoso seguiu para o conjunto São Raimundo. Bateu na casa 9-A da avenida da Saudade. Foi recebido por Lucilene Nava Gonçalves, 30. Pediu para ir ao banheiro e, sem que ela percebesse, jogou a arma usada no crime, para debaixo da cama e saiu.
Sua mão sangrava muito o que fez com que se dirigisse para o Hospital Clementino Moura (Socorrão 2), na cidade Operária, em busca de socorro. A Polícia Militar já estava no seu encalço. Valdimar foi preso ao chegar ao hospital, pelo sargento PM Alcides que se fazia acompanhar do cabo Ribeiro e do soldado Ivaldo. Na investigação preliminar, confessou os cinco homicídios e disse onde estava a arma. Na casa de Lucilene Gonçalves, os militares apreenderam-na. Uma pistola calibre 380, de marca Astra modelo Constable II, de fabricação espanhola. A arma estava munida de um silenciador de fabricação caseira, de péssima qualidade, o que justifica não ter abafado os estampidos ouvidos pela vizinhança das vítimas.Com Valdimar, os policiais apreenderam também um estojo com 7 balas novas, intactas.
AMIGOS
Lucilene também foi apresentada no Plantão da Rffsa e interrogada pelo delegado José Antonio Sobrinho, a quem prestou depoimento. Ela disse que conhece Valdimar Lindoso a muito tempo e que até chegou a namorar com o mesmo, mas que, atualmente são apenas amigos e que ele ao chegar em sua casa, ainda pela madrugada, pediu para ir ao banheiro, o que fez com que imaginasse que Valdimar desejava apenas satisfazer necessidades fisiológicas. Somente com a chegada da polícia foi que soube que ele havia escondido a arma em sua casa.
Criminoso disse que era perseguido
Valdimar Lindoso Ferreira, depois de medicado no Hospital Clementino Moura, foi apresentado pelo sargento Alcides, do 9º Batalhão da Polícia Militar, ao delegado José Antonio Sobrinho, no Plantão da Rffsa. Ao delegado Valdimar confessou a autoria dos crimes e justificou sua atitude extremada, dizendo que estava sendo vítima de perseguição pela família da sua ex-esposa, porém não explicou que tipo de perseguição, dando a entender apenas, que seria fanatismo religioso.
Perguntado sobre o que o havia motivado a matar o próprio filho, Valdimar disse que assim fez para salvá-lo, visto que a família da sua ex-mulher, o estava levando para a seita Testemunhas de Jeová, contra a sua vontade. Conforme o delegado Sobrinho, Valdimar Lindoso, também já foi Testemunha de Jeová, mas estava desviado, desde a separação da mulher Ellen Rose, que, assim com o seu pais e irmãos, continuava na congregação religiosa. Há também a informação de que aquele homem, antes havia professado o Evangelho como membro da igreja Assembléia de Deus.
Após a lavratura do auto de prisão em flagrante, Valdimar Lindoso Ferreira foi transferido para carceragem da 1a Delegacia Distrital (Centro). Os autos encaminhados à Justiça e a cópia para 8a Delegacia (Liberdade), em cuja circunscrição aconteceram os crimes e onde a peça preliminar deverá ser concluída em 10 dias.
Caso o movimento grevista dos policiais civis atrapalhe a conclusão do inquérito, Valdimar poderá ser beneficiado e liberado para responder ao processo em liberdade. O delegado Sobrinho avaliou Valdimar Lindoso Ferreira como um homem frio e calculista que premeditou os crimes, praticados com determinação, e que, em momento algum do seu interrogatório, demonstrou qualquer arrependimento. Foi enquadrado no Artigo 121 parágrafo 2 incisos I e IV combinado com o Artigo 69 do Código Penal Brasileiro.
RELAÇÃO DAS VÍTIMAS
1 – Raimundo João dos Inocentes
2 – Maria José Matos dos Santos
3 – EllenRose Matos dos Inocentes Ferreira
4 - Eric Ricardo dos Inocentes Ferreira
5 – Érica Rosana Matos dos Inocentes
6 –Eline Rosely Matos dos Inocentes (ferida)
Crime surpreende vizinhos e amigos
Presentes ao velório dc vítimas não acreditam no motivo dado por Valdimar Ferreira para cometer os homicídios – o fanatismo religioso
TÁSSIA AROUCHEDA EQUIPE DE O IMPARCIAL
Vários familiares, amigos e membros do movimento religioso Testemunhas de Jeová estiveram presentes ontem no velório de Ellen Rose Matos dos Inocentes e de outros quatro membros de sua família, assassinados durante a madrugada por seu ex-marido – o mototaxista Valdimar Lindoso Ferreira. O velório foi iniciado à tarde no Salão do Reino das Testemunhas de Jeová que era freqüentado pela família. Por causa do espaço reduzido, foi transferido no início da noite para o necrotério do Hospital Português e seguiu até a manhã de hoje, antes da locomoção para o enterro no Cemitério da Vila Embratel, marcado para as 9h.
Os corpos de Ellen Rose, Maria José Matos dos Inocentes e Eric Ricardo começaram a ser velados por volta de 17h30 no Salão do Reino. Os de Raimundo João dos Inocentes dos Santos e de Érica Rosana Matos dos Inocentes foram direto para o Hospital Português, por volta das 19h30. O clima no velório era de total comoção. "Todos eram pessoas benquistas na comunidade. Eram testemunhas de Jeová antigos", disse João de Deus Figueiredo, amigo da família e membro da religião.João de Deus era um dos presentes no velório que não acreditava no motivo dado por Valdimar Ferreira para cometer os homicídios – o fanatismo religioso das vítimas. "Nunca houve problema entre Valdimar e a família. Quando ele era casado com Ellen Rose, ela já era testemunha de Jeová.
Após a separação, ele visitava o filho regularmente e a família nunca se queixou dele. Tanto que ninguém pôde se prevenir desta tragédia", contou João de Deus. Para ele, Valdimar matou a ex-mulher e seus familiares porque não queria aceitar a idéia de concretizar o processo de divórcio, após dois anos de separação.Prima de Raimundo João dos Santos, Maria Caetano Pimenta acredita que Valdimar Ferreira não está falando à polícia o verdadeiro motivo do crime. "Eles se separaram porque Valdimar estava com outra moça. Agora ele estava querendo voltar com Elllen Rose e ela não aceitava", afirmou. Maria Caetano Pimenta também afirmou que a família nunca teve problemas com o mototaxista e que ele visitava o filho normalmente.
TRAGÉDIA
Segundo contam os familiares, Valdimar Ferreira chegou por volta das 3h na casa de sua ex-mulher, Ellen Rose, e foi logo atirando quando ela abriu a porta. Depois dirigiu-se ao quarto do filho, Eric, e o matou também. Em seguida, Valdimar foi para a residência dos ex-sogros, que fica a duas casas da de Ellen. Lá, chamou por Raimundo João e foi atendido por sua ex-sogra, Maria José. "Ele chegou dizendo que tinha matado a filha deles e foi atirando. Quem aparecia na porta ele atirava", relatou Maria Caetano Pimenta. Na seqüência, Valdimar matou Maria José, Raimundo João e Érica Rosana. "Ele deu ainda um tiro na Eline [Roseli dos Inocentes, irmã de Ellen Rose], mas só tinha uma bala e não conseguiu matá-la. Ela fugiu e foi pedir socorro", completou. Até o fim da tarde de ontem, Eline Roseli dos Inocentes continuava na Unidade de Terapia Intensiva do Centro Médico e não corria risco de morte.
VIZINHANÇA
Na vizinhança onde aconteceu a tragédia, todo mundo foi pego de surpreso com a notícia das mortes. "Não ouvi nenhuma zoada de tiros de madrugada. Só ouvi a porta batendo aqui do lado, mas não estranhei. Só de manhã que soube o que tinha acontecido", contou Joana Louzeiro Costa, que mora ao lado da casa de Raimundo João e Maria José.Raimundo João dos Inocentes dos Santos, 60, era marceneiro. Sua mulher, Maria José Matos dos Inocentes, 54, e sua filha, Ellen Rose Matos dos Inocentes, 31, eram donas-de-casa. Érica Rosana Matos dos Inocentes, 27, era funcionária pública. Já a irmã mais nova de Ellen Rose, Eline Roseli dos Inocentes, 24, que conseguiu sobreviver, trabalha no comércio.
Assassino freqüentou igreja das vítimas
SELMA ROSADA EQUIPE DE O IMPARCIAL
"Assim como todas as pessoas da família, estamos procurando uma resposta para o que aconteceu" – declarou Jorge Figueiredo, amigo e membro da mesma congregação da família chacinada na madrugada de ontem, na praça Marechal Lott, no Monte Castelo. Segundo ele, o assassino nunca aparentou qualquer distúrbio, tendo freqüentado o Salão do Reino das Testemunhas de Jeová, na Vila Passos – onde toda a família se congregava – por vários anos. "Ele sempre foi uma pessoa calma, tranqüila", relembra.Jorge Figueiredo conta que depois que Valdimar Lindoso deixou de participar das reuniões na congregação, localizada na rua Catulo da Paixão Cearense, 406 B, Vila Passos, pouco o via.
"Nas poucas vezes que vinha ao Salão, era sempre no final das reuniões, para ver o filho. Sempre demonstrou muito amor pelo menino. Era carinhoso, beijava e abraçava sempre o garoto", discorre, ressaltando que nunca presenciou brigas, discussões ou qualquer outro tipo de desentendimento entre Valdimar, a ex-esposa e os familiares dela. "Ele chagava; ficava um pouco com o filho e depois ia embora", acrescenta.
Sobre o fato de Valdimar ter comprado a arma com antecedência e ter premeditado o crime, os amigos da família não quiseram opinar. "Não temos como afirmar nada. Está tudo ainda muito confuso. Ninguém esperava por isso", disse Antônio José Pereira, também membro da mesmo congregação. Para Antônio Pereira, uma pessoa que comete este tipo de crime não tem espiritualidade. Informa, ainda, que os membros das duas famílias mortas – Matos e dos Inocentes – eram bastante participativas dentro da congregação do Reino das Testemunhas de Jeová. "Eram exemplos e modelos dentro e fora da igreja, na comunidade onde moravam", assinalou. José de Ribamar Moreira, parente da família – genro de Raimundo João dos Inocentes, 60 – confirmou a informação, ressaltando que a família toda era muito amorosa e prestativa.
Psiquiatra diz que caso não é comumPara o psiquiatra Geraldo Melônio do Nascimento, o crime cometido por Valdimar Ferreira é completamente atípico e por isso tem que ser estudado. "Não é típico por causa do número grande de vítimas e pela seqüência das ações que demonstra uma determinação do autor.
Ele realmente queria matar e sua ação não foi algo repentino", analisou. "Outra coisa atípica foi o fato de ele não ter fugido após matar a ex-mulher e o filho, o que é uma tendência numa ação tão agressiva. Ao contrário, fez questão de continuar com o que tinha intenção de fazer", completou.
Sobre o motivo do crime apontado por Valdimar, o psiquiatra acredita que ele é pequeno em comparação com um crime tão grande. "Os Testemunhas de Jeová não se enquadram no perfil de seitas fanáticas. Por outro lado, todo crime tem motivação. Resta saber se este foi realmente o motivo. Isto só será conhecido com interrogatórios e com uma investigação da personalidade de Valdimar através de exames psiquiátricos".
Em casos de tragédias como a da família de Ellen Rose, as pessoas costumam se questionar o que leva uma pessoa a praticar um ato de grande violência. Para que a questão seja respondida, o psiquiatra Geraldo Melônio do Nascimento indica que o caso concreto seja analisado. "A vida de Valdimar nos últimos tempos deve ser investigada, pois nada ocorre por acaso. Tem que se saber também como era a relação dele com as pessoas que matou, se ele vinha vivenciando algum problema psiquiátrico e como era o seu relacionamento com amigos, vizinhos e colegas de profissão", concluiu.
Religião não distingue entre clero e leigos
O movimento religioso conhecido como Testemunhas de Jeová assume-se como uma religião cristã, não trinitária. Considerando apenas a sua Teologia Central, é derivado dos movimentos religiosos do Segundo Advento da segunda metade do Século XIX. Os seus adeptos crêem que praticam o cristianismo primitivo, mas não são fundamentalistas no sentido que o termo é comumente usado. O movimento foi iniciado por Charles Taze Russell, entre 1870 e 1879, num pequeno grupo de estudo não sectário da Bíblia, em Allegheny (hoje integrada na cidade de Pensivâlnia).
As Testemunhas de Jeová não têm a distinção entre clero e leigos comum a muitas denominações religiosas. Todas as Testemunhas de Jeová são incentivadas a serem diligentes estudantes da Bíblia e das publicações da religião, bem como a apresentar um elevado grau de compromisso com a sua religião, que interiorizam como um modo de vida. Crêem que todas elas são Ministros de Deus, ordenados no batismo por imersão completa em água.
A história moderna das Testemunhas de Jeová tem sido marcada por algumas controvérsias religiosas e políticas. Os seus membros são bem conhecidos pela sua regularidade e grande persistência na obra de evangelização de casa em casa e nas ruas. Como parte de seu serviço a Deus, assistem regularmente às suas reuniões congregacionais três vezes por semana, no seu local de reuniões chamado de Salão do Reino das Testemunhas de Jeová, para instrução coletiva e edificação mútua. Outras reuniões de maiores dimensões ocorrem, usualmente, três vezes por ano, em Salões de Assembléias mantidos pela comunidade ou em instalações públicas, como estádios desportivos.
Fonte: Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Testemunhas_de_Jeov%C3%A1)